As Etapas do Pensamento Sociológico: Max Weber – As Antinomias da Condição Humana

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As ciências da cultura são compreensivas e causais. A relação de causalidade pode ser histórica ou sociológica. O historiador visa pesar a eficácia causal dos diferentes antecedentes numa única conjuntura; o sociólogo procura estabelecer relações de sucessão que se repetiram ou que são suscetíveis de repetição. O instrumento principal da compreensão é o tipo ideal, cujo traço comum é a percepção da lógica de um tipo de conduta ou de um fenômeno histórico singular. O tipo ideal é um meio, não um fim; o objetivo das ciências da cultura é compreender os sentidos subjetivos, isto é, a significação que os homens atribuem à sua existência. Esta ideia de que a ciência da cultura busca compreender o sentido subjetivo das condutas está vinculada à relação que se estabelece, no pensamento de Max Weber, entre o conhecimento e a ação.

Um dos temas fundamentais do pensamento de WEBER é a oposição entre o julgamento de valor e a relação com os valores. A existência histórica é, por essência, criação e afirmação de valores. A ciência da cultura é a compreensão dessa existência, e sua abordagem é a relação com os valores.

A filosofia dos valores de Weber tem uma relação estreita com a teoria da ação. Ela é uma filosofia que propõe, como ponto de partida, a distinção radical entre os fatos e os valores. Os valores são criados pelas decisões humanas, que diferem dos atos pelos quais o espírito percebe o real e elabora a verdade. Para Max Weber, há uma diferença fundamental entre a ordem da ciência e a ordem dos valores. A essência da primeira é a sujeição da consciência aos fatos e às provas; a essência da segunda é o livre arbítrio e a livre afirmação. Ninguém pode ser obrigado, por uma demonstração, a reconhecer um valor ao qual não adere.

Max Weber tratou de duas maneiras esse mundo de valores, mundo da ação e objeto da ciência atual. De um lado, Weber procurou elaborar o que eu chamaria de as antinomias da ação. De outro, como sociólogo, ele quis refletir sobre as diferentes atitudes religiosas e a influência que exercem sobre a conduta dos homens, notadamente sobre sua conduta econômica.

A antinomia fundamental da ação, de acordo com Max Weber, é a da moral da responsabilidade e da moral da convicção. A ética da responsabilidade é a que se preocupa com a eficácia, e se define pela escolha dos meios ajustados ao fim que se pretende. Max Weber gostava de citar como exemplo o cidadão de Florença que (segundo MAQUIAVEL) preferiu a grandeza do Estado à salvação da sua alma. O homem de Estado emprega meios reprovados pela ética vulgar para realizar um objetivo supra-individual, que é o bem da coletividade.

Aparece aqui o que alguns autores, como Leo Strauss, chamaram de niilismo weberiano. Weber não acreditava que pudesse haver um acordo entre os homens e as sociedades sobre o objetivo a alcançar. Ele pensava que cada um de nós é obrigado a escolher entre valores que, em última análise, são incompatíveis entre si. Em matéria de ação, há escolhas que implicam sacrifícios.

Dentro de uma coletividade, não há medida política que não traga vantagem para uma classe e sacrifício para outra. Por isso as decisões políticas, que podem e devem ser iluminadas pela reflexão científica, serão sempre, em última análise, ditadas por julgamentos de valor não suscetíveis de demonstração. A noção genérica de bem comum não comporta uma determinação rigorosa.

Para Weber, a teoria da justiça implica uma antinomia fundamental. Os homens são desigualmente dotados do ponto de vista físico, intelectual e moral. Sendo a desigualdade o fenômeno natural e primeiro, nossa tendência pode ser ou apagar pelo esforço social a desigualdade natural, ou, retribuir a cada um com base nas suas qualidades. Max Weber afirmava que a ciência não pode orientar a escolha entre as duas posições. Não só os valores podem ser historicamente incompatíveis, no sentido de que uma mesma sociedade não pode realizar ao mesmo tempo os valores do poder militar, da justiça social e da cultura, mas também a realização de alguns valores estéticos pode contrariar a realização de certos valores morais, e a realização destes últimos pode dificultar a realização de determinados valores políticos.

O problema da escolha dos valores nos introduz a ética da convicção, que incita a agir de acordo com nossos sentimentos, sem referência às consequências. Weber dá dois exemplos: o do pacifista absoluto e o do sindicalista revolucionário.

O pacifista absoluto se recusa incondicionalmente a portar armas e matar seu semelhante. Se ele pensa que irá impedir as guerras com essa recusa, é um ingênuo e, no plano da moral da responsabilidade, ineficiente. Mas se seu objetivo é simplesmente agir de acordo com sua consciência e se a própria recusa é o objeto de sua conduta, não pode ser refutado. Pode-se não lhe dar razão, mas não se pode demonstrar que esta enganado, pois o ator não invoca outro juiz a não ser sua própria consciência e a consciência de cada um é irrefutável na medida em que não tem a ilusão de transformar o mundo e a única satisfação que ambiciona é a própria fidelidade. O mesmo acontece com o sindicalista revolucionário, que diz não à sociedade, indiferente às consequências da sua recusa; na medida em que tem consciência do que faz, ele escapa às críticas científicas ou políticas dos que se colocam no plano dos fatos.

Está claro que a moral da convicção não pode ser a moral do Estado. Ela não pode ser a ética do homem que participa, por menos que seja, do jogo político, mesmo que seja pelo uso da palavra oral ou escrita. Ninguém diz ou escreve sem se preocupar com as consequências de suas palavras e de seus atos, unicamente preocupado em obedecer à consciência. A moral unicamente da convicção é um tipo ideal do qual ninguém deve se aproximar demais, a fim de poder ficar dentro dos limites da conduta racional.

Subsiste uma ideia profunda na antinomia weberiana da convicção e da responsabilidade. No campo da ação, ficamos divididos entre duas atitudes. A primeira, busca produzir resultados adequados aos nossos objetivos; obriga-nos assim a ver o mundo como é e a analisar as consequências prováveis do que fazemos ou dizemos. A segunda, nos leva a falar e a agir sem considerar os outros, e nem o determinismo dos acontecimentos; às vezes obedecemos ao impulso irresistível de entregar nas mãos de Deus as consequências de nossos atos. A ação baseada na razão inspira-se ao mesmo tempo nestas duas atitudes. Mas é útil enunciar os tipos ideais das duas atitudes entre as quais oscilamos: a do homem de Estado, mais inclinado à responsabilidade, quando menos para se justificar, e o cidadão, mais propenso a convicção, talvez apenas para criticar o estadista. Max Weber afirmava: “As duas máximas éticas se opõem num antagonismo eterno, que é absolutamente impossível de superar com os meios de uma moral fundamentada puramente em si mesma” (Essais sur la theorie de la Science, p. 425), e também que “A ética da convicção e a ética da responsabilidade não são contraditórias, mas se completam mutuamente, constituindo, juntas, o homem autêntico, isto é, um homem que pode pretender à ‘vocação política’” (Le savant et le politique, p. 199).

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Bibliografia:

ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. 7ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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