As Etapas do Pensamento Sociológico: Weber, Nosso Contemporâneo

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Em 1964, em Heidelberg, durante um congresso organizado por Deutsche Gesellschaft fur Soziologie por ocasião do centésimo aniversário do nascimento de WEBER, Herbert Luthy, historiador suíço, chegou a escrever que havia “weberianos”, da mesma forma como “marxistas”, igualmente suscetíveis quando alguma das ideias de seu mestre era questionada. Por que razão quase meio século depois de morto Max Weber desperta ainda tantas paixões?

A controvérsia sobre A ética protestante e o espirito do capitalismo não terminou ainda porque propõe dois problemas de grande alcance. O primeiro é histórico: em que medida o espírito protestante influencia a formação do capitalismo? O segundo problema é teórico, ou sociológico: em que sentido a compreensão das condutas econômicas exige a referência às crenças religiosas e aos sistemas do mundo dos atores? Entre o homem econômico e o homem religioso não há uma separação radical. É devido a uma ética determinada que o homem de carne e ossos se transforma em homo oeconomicus. Combinando uma teoria abstrata dos conceitos fundamentais da sociologia com uma interpretação semiconcreta da história universal, Max Weber é mais ambicioso do que os professores de nossos dias. Neste sentido, pertence possivelmente tanto ao passado quanto ao futuro da sociologia.

Nos Estados Unidos Max Weber foi interpretado e traduzido por Talcott Parsons. Sua obra é acolhida como a de um cientista puro. Na Europa, o centenário do nascimento de Max Weber despertou paixões. A este propósito, nada foi mais revelador do que as três sessões plenárias do congresso de Heidelberg. A primeira, aberta com conferencia de Talcott Parsons sobre as concepções metodológicas de Weber, provocou um debate propriamente acadêmico. As duas seguintes, porém, tiveram outro caráter.

Estes dois debates – Max Weber und die Machtpolitik, relativo ao lugar ocupado por Max Weber na política alemã, o outro, Industrialisierung und Kapitalismus, uma conferência de Herbert Marcuse, a propósito de sua filosofia e de suas atitudes fundamentais – diferem em alcance e em estilo. Alguns autores tinham tendido a apresentar Weber como um bom democrata, de estilo ocidental. Esta concepção estava muito distante da realidade. O valor que Max Weber punha acima de tudo por sua livre decisão era a grandeza nacional, não a democracia ou as liberdades pessoais.

Esta reinterpretação causou escândalo porque tirava do seu pedestal um dos patronos da nova democracia alemã. Contudo, ela é indiscutível. O nacionalismo de Max Weber conduzia ao que hoje seríamos tentados a chamar de imperialismo. As nações estão engajadas numa competição permanente, ora aparentemente pacífica, ora claramente cruel. Os homens morrem em trincheiras ou vegetam trabalhando em minas ou fábricas, ameaçados pela concorrência econômica ou pelo fogo dos canhões. O poder da nação é ao mesmo tempo um meio e um fim; garante a segurança, contribui para a difusão da cultura (porque as culturas são essencialmente nacionais) mas o poder é desejado por si mesmo, como expressão da grandeza humana.

Como Nietzsche, Weber criticava muitas vezes o povo alemão, pela obediência passiva, a aceitação de um regime tradicional, suas atitudes de novo-rico – condutas indignas de um povo que deve assumir um papel de importância mundial. Quanto à democracia de sua preferência, com um líder escolhido por todo o povo, ela tem alguns traços que lembram sobretudo a V República da França, sob o general De Gaulle. Líder carismático, eleito por sufrágio universal, tomando sozinho as grandes decisões, responsável perante sua consciência e a história, tal é o chefe “democrático”, imaginado por Max Weber. Esta ascendência carismática do líder politico representava, para Weber, uma reação salvadora ao reinado anônimo dos burocratas.

O segundo debate, iniciado por Herbert Marcuse, focaliza a filosofia histórica de Max Weber. Este toma como tema central da sua interpretação da moderna sociedade ocidental a racionalização, tal como se manifesta na ciência, na indústria e na burocracia. O regime capitalista esteve historicamente associado ao processo de racionalização. Este processo é o destino do homem, ao qual nenhum regime pode escapar. Max Weber foi hostil ao socialismo não só porque era nacionalista ou porque, na luta de classes, se situava ao lado da burguesia. O que ameaçava a dignidade do homem, a seus olhos, era a servidão dos indivíduos com relação a organizações anônimas. O sistema de produção eficaz é também um sistema de dominação do homem sobre o homem. Max Weber reconhecia que “os operários seriam sempre socialistas, de um modo ou de outro”, mas o socialismo realizado comportaria para os valores humanos os mesmos perigos que o próprio capitalismo. Mais ainda: o socialismo não poderia deixar de agravar esses perigos, na medida em que, para restaurar e manter a disciplina do trabalho num regime burocratizado, precisava impor uma dominação mais rigorosa ainda do homem sobre o homem, ou da organização sobre o individuo, limitando ainda mais as liberdades pessoais. É um mérito Weber ter distinguido rigorosamente a racionalidade, científica ou burocrática, da razão histórica. Ele tinha reconhecido antecipadamente que a racionalização não garante o triunfo do que os democratas de boa vontade chamam de valores liberais.

Em Weber, uma filosofia da luta e do poder, de inspiração marxista e nietzschiana, se combina com a visão de uma história universal que leva a um mundo desencantado, a uma humanidade em servidão, despojada das suas virtudes mais elevadas. Max Weber colocava acima de tudo a coragem de afrontar a condição humana tal como ela aparece a quem rejeita as ilusões da religião como das ideologias políticas. Todos os que pensam possuir uma verdade absoluta ou total, todos os que pretendem reconciliar valores contraditórios, marxistas-hegelianos, doutrinários da democracia ou do direito natural, continuam (com razão) sua polêmica contra um autor que dá caráter dogmático à recusa do dogmatismo, que empresta uma verdade definitiva à contradição de valores, que só conhece a ciência parcial e as escolhas estritamente arbitrárias. Alguns destes dogmatismos estão na origem dos totalitarismos da nossa época. Contudo, Max Weber, com sua filosofia do engajamento, não oferece necessariamente uma melhor proteção contra o retorno dos bárbaros. O líder carismático devia servir de recurso contra a dominação anônima da burocracia. Aprendemos a temer as promessas dos demagogos, mais do que a banalidade da organização racional.

Estes debates ilustram a multiplicidade dos sentidos em que parece apropriado afirmar que Max Weber é nosso contemporâneo. Primeiramente, porque pertence à família dos grandes pensadores, cuja obra é tão rica e ambígua que cada nova geração a lê, interroga e interpreta à sua maneira. Depois, porque é um cientista cuja contribuição ainda permanece atual. Trate-se da compreensão, dos tipos ideais, da distinção entre julgamento de valor e relação aos valores, do sentido subjetivo enquanto objeto próprio do estudo sociológico, sentimo-nos sempre tentados a multiplicar questões ou pelo menos objeções. A sociologia de Weber poderia ser talvez mais científica, mas seria menos apaixonante se não tivesse sido animada por um homem que colocava constantemente as questões fundamentais: o relacionamento entre o conhecimento e a fé, a ciência e a ação, entre a Igreja e o profetismo, a burocracia e a liderança carismática, entre a racionalização e a liberdade individual. E que procurava em todas as civilizações as respostas dadas a suas próprias questões, para, no fim dessa exploração, por natureza indefinida, encontrar-se, só e dilacerado, diante da escolha do seu próprio destino.

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Bibliografia:

ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. 7ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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