A República Inacabada: Existe Um Pensamento Político Brasileiro? – Do Pensamento Político

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A pergunta do título envolve duas proposições: o pensamento político e o pensamento político brasileiro. Se há um pensamento político brasileiro, há um quadro cultural autônomo, moldado sobre uma realidade social capaz de gerá-lo ou de com ele se soldar. A primeira proposição, pertinente ao pensamento político, extrema o pensamento, o pensamento caracterizadamente político, da ideologia e da filosofia política, entendida nesta locução também a ciência política.

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O pensamento político se expressa, quase sempre, como ideologia e como filosofia ou ciência política. Ele tem, entretanto, autonomia. É o que se tentará demonstrar, para o efeito de caracterizar-lhe a estrutura, na sua dimensão atuante e autônoma. A filosofia política e sua enteada, a ciência política, não nascem do mesmo parto. O PENSAMENTO POLÍTICO É A POLÍTICA, NÃO A CONSTRUÇÃO POLÍTICA.

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A redução do pensamento político à filosofia política leva a desfigurar a política e a converter a história à história das ideias. Toda uma categoria social se perderia. Assim, o mundo soviético teria sua origem no Manifesto Comunista, depois de quase um século de maturação. A política se desvincularia da realidade, perdida em simplismo que a tornaria o desvario de cérebros ociosos.

O pensamento político atua, deformando-se, na ideologia. A política, o direito, as leis traduzem o “processo de vida real” dos homens. Os fazendeiros de São Paulo, como os surpreendeu Saint Hillaire, às vésperas da Independência, tipificam o comportamento não ideológico: “a única coisa que compreendem é que o restabelecimento do sistema colonial lhes causaria dano porque se os portugueses fossem os únicos compradores de seu açúcar e café não mais renderiam suas mercadorias tão caro como agora o fazem” (SAINT HILLAIRE, 1938, v. 126, p. 167)”.

O sistema colonial sofre, para os rudes lavradores, a objeção de seus interesses, sem apelo às doutrinas liberais. Estes não criam, pela via ideológica, o imaginário que lhes universalize os interesses, nem o recobrem do véu que os deforma. A ideologia, além desse papel de dissimuladora, opera como meio de hegemonia política, numa classe que se pretende representar a sociedade global. Por meio dela, com a intermediação dos intelectuais, cimentam-se as homogeneidades e organiza-se a luta social. Ela constitui o terreno “sobre o qual os homens se movimentam, lutam, adquirem consciência de sua posição” (GRAMSCI, 1966).

A ideologia comporta outro perfil, corrente no vocabulário político. No paradigma marxista, a consciência ideológica é uma “ilusória” e uma “falsa consciência” (LUKÁCS). Uma classe, cujo domínio político é exercido por uma minoria, no interesse dessa minoria, difunde-se, para que outras classes se iludam, confundindo-se na sua verdadeira consciência de classe. Em outro sentido, mais comum na linguagem, a ideologia significa genericamente um “sistema de crenças ou de valores, utilizado na luta política para influir sobre o comportamento das massas, para orientá-las numa direção e não em outra, para dirigir o consenso, para justificar o poder” (BOBBIO). Trata-se de uma forma de pensamento político em batalha, com uma característica que a diferencia do pensamento político em estado puro. A eficácia da ideia assume a importância maior, com desprezo, embora involuntário, da pauta de verdade.

A ideologia, como ação desvinculada do compromisso com a verdade, é interessada unicamente na eficácia, e a ideologia, que organiza o consenso hegemônico na sociedade civil, reina no território da praxis. No outro extremo, a filosofia política reduz o pensamento político ao logos, em proposições científicas ou filosóficas: a realidade seria o espelho da teoria. Ambas, a filosofia política e a ideologia (nos dois sentidos), sistematizam, formulam, estruturam a política. Ela, a política que não é filosofia, nem ciência, nem ideologia, que não se extrema na ação, nem se racionaliza na teoria, ocupa, na verdade, o espaço do que se chama pensamento político, não correntemente racionalizado em fórmulas. Os fins estão no resultado, naquilo que WEBER qualificou de ética da responsabilidade, responsabilidade no sentido de resposta da ação, no intercâmbio de ações, posta em segundo plano a intencionalidade da conduta. Esse pensamento é o PENSAMENTO POLÍTICO EM ESTADO PURO para efeito de definição teórica.

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O pensamento político não será o resíduo das ideologias, nem a política em estado de modelo. Sua função é a de direcionar a conduta humana em determinado sentido, não de representá-la descritivamente. As suas proposições cuidam da validade, como convém ao mundo da praxis.

A ideologia e a filosofia política corporificam um princípio político e se propõem a realizá-lo, como a liberdade, a igualdade, a democracia. Designam o que se persegue independentemente de como fazê-lo. Na verdade, o pensamento político se desenvolve na consideração sobre o campo da própria política. O pensamento político é, assim, um ato político, compreensível politicamente, não em pautas abstratas. A ideia faz-se atividade, porque escolhida, adotada, incorporada à atividade política. O vínculo entre a praxis e o logos dá-se pela SUGERÊNCIA, palavra que indica o modo como se expressa o quantum possível de saber formulado a partir da experiência. O poder da sugerência ultrapassa a compatibilidade lógica que se expressa no pensamento político. A própria lei terá eficácia circunscrita às situações de força se despida de sugerência. A validade e eficácia de uma lei dependem de como atue na práxis e não no catálogo das normas obrigatórias.

O saber informulado — pela via da experiência, a que está na sugerência — é o registro de entrada no saber formulado, canal seletivo e inibitório. O pensamento político de cada um não se afirma na fórmula intelectual, mas na atividade real, implícita na ação. A eventual contradição entre a regra e a conduta rompe-se privilegiando a conduta: nela está o pensamento político real, embora a contradição intelectual nada tenha a ver com a má-fé. O saber informulado, que, pela via da práxis, compõe o pensamento político, está na sugerência; é esta que o distingue da fantasia, do arbítrio imaginativo e da ideologia. A sugerência, em direções contrárias, freia, de um lado, o desenvolvimento teórico, dando-lhe consistência prática, e, de outro, marca o limite da presença da sociedade. Os estilistas vitorianos da moda propuseram-se criar, para as ciclistas, um traje adequado à bicicleta. Eles fracassaram, ao vestirem-nas de modo pouco funcional à bicicleta, mas conveniente ao recato das castas vitorianas. Os costureiros obedeciam aos limites sociais que a sugerência lhes inspirou.

A província da práxis, em que atua o pensamento político, forma-se e ordena-se por meio de ideias abstratas e sistematizáveis. O pensamento político é uma atividade: a atividade é o território da prática. A atividade é e ainda não é. “A atividade envolve uma discrepância entre o que é e o que desejamos que venha a ser.” (Aristóteles) O pensamento político está sob a jurisdição da práxis. A práxis, entretanto, é um feixe caótico de ideias.

O pensamento político, porque atividade, contém carga crítica, como valor e como o ser que virá-a-ser, corrosivo da ideologia e do imobilismo da filosofia política. Acompanha e potencializa a dialética social, à qual se vincula por meio de manifestações múltiplas, que não estão necessariamente submersas no saber formulado, com o rótulo político. Em certos momentos, o pensamento político se expressa melhor na novela do que no discurso político, mais na poesia do que no panfleto de circunstância. Repele as especializações, expandindo-se em todas as manifestações culturais, ainda que se afirme o congelamento ideológico e o enciclopedismo filosófico.

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Bibliografia:

FAORO, Raymundo. A República Inacabada. São Paulo: Globo, 2007.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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