O Conservadorismo – As Fontes do Conservadorismo

COMPARTILHE:
Share

A substância filosófica do conservadorismo nasceu em 1790, com EDMUND BURKE, na sua obra Reflections on the Revolution in France. Raramente um conjunto de ideias foi tão dependente de um único homem como o conservadorismo moderno o foi de Edmund Burke e da sua violenta reação à REVOLUÇÃO FRANCESA. Nos escritos de HOBBES, LOCKE e ROUSSEAU, fundamental era apenas a dura realidade do indivíduo; as instituições ficavam na sombra.

Perguntava-se repetidamente: como pudera Burke apoiar os colonos na América e voltar-se agora contra os Franceses por procurarem a emancipação do despotismo monárquico?

Na França, o ataque ao governo e cultura tradicional partira de um pequeno grupo, os JACOBINOS, mas, argumentava Burke, a violação da liberdade não era menor pelo fato de a maioria no governo ser de sangue francês. Do ponto de vista de Burke, os Jacobinos usavam a força contra o povo francês precisamente como faria um “exército invasor”. Os Jacobinos, entendia Burke, desejavam aniquilar todas as instituições que interferissem com a criação do Homem Revolucionário.

Burke afirmava que Rousseau era o principal autor da Revolução Francesa. Os grupos tradicionais – associações, mosteiros, corporações de toda a espécie – tinham sido condenados por Rousseau, na intenção de conseguir uma vontade geral pura e também a própria autonomia do indivíduo. Precisavam, portanto, de ser eliminados ou muito subordinados à nação. Em 1791 todas as associações foram abolidas – um objetivo que tinha resistido a todos os esforços das monarquias de direito divino da França moderna.

A crença geral dos “philosophes” tinha sido que a estrutura de parentesco tradicional era “contra a natureza e contrária à razão”. Em 1792 o casamento foi declarado contrato civil e proporcionados vários fundamentos de divórcio. Foram estabelecidos limites à autoridade paterna, entre eles o desaparecimento dessa autoridade quando os filhos atingissem a maioridade legal. As leis tradicionais de primogenitura e morgadio foram abolidas. No geral, os esforços da Assembleia Nacional, da Convenção Nacional e da Comissão para a Segurança Pública voltavam-se, ao mesmo tempo, para a individualização da sociedade e para a racionalização de tudo, desde a cunhagem de moeda, pesos e medidas até a propriedade, educação, religião e todos os aspectos de governo.

Em diferentes ocasiões o governo pôs fim a todos os votos de ordem religiosa, nacionalizou a Igreja, atribuiu aos clérigos salários de Estado, com a condição obrigatória de fazerem juramento de fidelidade à Revolução; e em 1793 surgiu o projeto de descristianizar a França completamente, enchendo o vácuo que ficava com uma nova religião dedicada à razão e à virtude. No interesse da nova religião e também dos espíritos dos homens, escreveram-se rituais bem elaborados e introduziu-se um novo calendário. Foi o terror o que mais chocou a Europa, dentro da Revolução. Mas Burke, sem minimizar o terror, o via como menos insidioso do que muita legislação aprovada pelas assembleias revolucionárias.

Uma outra revolução dessa época despertou os conservadores e também os românticos da Europa: a REVOLUÇÃO INDUSTRIAL. Até então, as indústrias manuais tinham sido em larga escala executadas nas casas dos trabalhadores, oferecendo assim pelo menos a possibilidade de se ligarem à economia caseira. Mas agora, nas novas fábricas, os trabalhadores eram indivíduos no agregado e, uma vez aí, não deviam atender a nenhum vínculo senão aos que lhes eram impostos pelo processo industrial.

Inevitavelmente, o quadro demográfico de Inglaterra alterou-se. Áreas outrora de baixa densidade populacional enxameavam agora de trabalhadores atraídos pelos empregos oferecidos pelas fábricas. Instalou-se uma nova forma e intensidade de individualismo, na qual a despromoção e a promoção eram possíveis na escala social: a primeira nas deslocações de aldeias para bairros pobres; a segunda nas oportunidades oferecidas pelas fábricas, isto é, a elevação do trabalhador a um grau de supervisor ou mesmo de gerente. A descrição que Ostrogorsky fez do “colapso da velha sociedade” é esclarecedora:

“Os membros da nova aristocracia do dinheiro, cuja riqueza rivalizava e às vezes ultrapassava a da velha aristocracia de sangue, estavam ansiosos por se misturarem com os últimos. No fim das guerras napoleônicas, nas quais se fizeram fortunas imensas, surgiu uma grande luta: vários dos novos cidadãos levados a forçar a sua entrada na “sociedade” e nas suas classes, foram lançados na confusão. Foi em vão que essa sociedade tentou entrincheirar-se atrás das barreiras do exclusivismo aristocrático”.

A aristocracia, sob as ferozes pressões da alteração demográfica e da reocupação e abandono de velhos bairros, perdera grande parte do seu monopólio de representação parlamentar. Muitas das reformas políticas que se seguiram à de 1832 continuaram a ação desta, da reestruturação dos eleitores. Embora estas alterações sejam mais a consequência de forças democráticas, foi sem dúvida o solvente industrial que iniciou a dissolução dos elos mais antigos entre as pessoas. Entre as mudanças sociais, não foi de menor importância a substituição dos Juízes de Paz, isto é, a classe de agrários que combinavam a riqueza com o desempenho de certos cargos não-pagos em vilas e cidades, por uma nova classe de servidores civis eleitos ou nomeados. Daí por diante os quadros administrativos fariam o que tinha, durante tanto tempo, sido feito pelos latifundiários. Mas devemos acentuar: nenhum desconforto conseguiu jamais atenuar o amor dos conservadores pela propriedade – assim como por um lugar no governo, a sua herança mais obsessiva e duradoura.

Outros dois grandes movimentos do século suscitaram a preocupação dos conservadores. O primeiro foi obra de JOHN WESLEY: o “Wesleyanismo” ou METODISMO.

Wesley olhava à sua volta e via uma Igreja corrompida pelo seu formalismo e desprezo da pureza da fé; e, para além da Igreja, toda uma organização social alienada dos genuínos ideais e aspirações cristãos. Seria leviandade declarar os “Wesleyanos” completamente isentos de impulso e impacte revolucionários, mesmo que o motivo fosse mais religioso do que político. O entusiasmo latente pela doutrina de Wesley frequentemente invadiu as áreas sociais e civis da vida inglesa. Há sempre uma ameaça à moralidade e à lei civil quando essa seita se declara responsável pela purificação da política e da religião.

Irritante para a grande maioria dos conservadores em Inglaterra foi, por fim, a filosofia utilitária de JEREMY BENTHAM. Bentham tornara-se, na sua rejeição do Iluminismo, da Revolução Francesa e de todos os filósofos dos direitos naturais, muito mais revolucionário do que qualquer daqueles. Para Bentham, “O passado não interessa”. Tudo o que era bom provinha só da razão individual; da razão envolvida pela incessante busca humana do prazer e pela fuga à dor. O seu princípio “PANÓPTICO” (princípio de construção destinado à criação de um espaço que possa ser abrangido pela vista todo de uma só vez), que devia ser aplicado às escolas, hospitais, hospícios, até às grandes fábricas era, como dizia Disraeli, “o fruto detestável do casamento entre a razão e a desumanidade”. Era horrível, na opinião dos conservadores, o mundo de pesadelo da razão fria, da burocracia, da reforma permanente e da total ausência de emoção e sentimento, que Bentham preconizou.

Por detrás das palavras de Burke há uma filosofia da História antiprogressista, que vê o passado recente como um imparável declínio da grandeza, especificamente da grandeza medieval; a grandeza de uma religião incontestável, da cavalaria, das grandes instituições como universidades, de um pensamento unificado e sintetizado.

Este recurso ao passado, em busca de inspiração e de modelos em que basear a orientação política do presente, está profundamente implantado na tradição conservadora. No fundo, foi aos princípios feudais que Burke, Bonald, Chateaubriand, Haller e HEGEL recorreram, no início do século XIX, para enfrentarem as pressentidas ameaças do poder democrático, do igualitarismo, da centralização política, do utilitarismo e demais modernidades. Joseph de Maistre falou pela maioria dos conservadores quando escreveu: “Não queremos uma contrarrevolução mas o oposto da revolução”. Para de Maistre o “oposto” da sociedade revolucionária criada pelos Jacobinos era essencialmente a sociedade que o Jacobinismo tinha atacado: a sociedade feudo-medieval que atingira o seu auge no século XIII.

Contribua com o Resumo da Obra

Bibliografia

NISBET, Robert.  O conservadorismo. Lisboa: Editorial Estampa, 1987.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

More Posts

Follow Me:
Twitter

Desabafos

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Time limit is exhausted. Please reload CAPTCHA.