A Casa & A Rua: Morte (A morte nas sociedades relacionais: reflexões a partir do caso brasileiro)

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Todas as sociedades têm de dar conta da morte e dos mortos, mas há um padrão quando se lança os olhos sobre a questão. De um lado há sistemas que se preocupam com a morte, de outro há sistemas que se preocupam com o morto. Nas sociedades onde o indivíduo (ou a parte) prevalece socialmente sobre o todo, a morte é um assunto isolado e um problema fundamental. Nelas, falar abertamente da morte demonstra uma atitude moderna e destemida diante da vida. Discursar sobre os mortos, porém, é algo sentimental e mórbido. Esquecer o morto é positivo, pois lembrar o morto evoca o passado.

Uma atitude inversa é encontrada quando estudamos as sociedades tradicionais, onde o sujeito social não é o indivíduo, mas as relações entre indivíduos. Nelas, os mortos são sistematicamente relembrados e homenageados pela sociedade. Uma atitude que passa pelo crivo de um conjunto de relações sociais que são muito mais importantes do que o morto e do que os vivos. Não compreender, então, a contundência moral e ideológica da rede de relações que dá realidade aos membros destas sociedades é não poder interpretar corretamente essa obsessão pelos mortos e desprezo pela morte.

Na medida em que se pode discernir como o individualismo torna negativas as relações sociais e a lógica relacional que a acompanha, pode-se compreender por que em uma sociedade como a norte-americana há a ausência de luto, já que o luto como conhecemos é algo que salienta as relações sociais, sendo imposto de fora para dentro, da sociedade e das relações sociais para todo o círculo de pessoas que cerca o morto.

A morte e os mortos no Brasil

No Brasil, se fala muito mais dos mortos do que da morte. A morte aqui é concebida como uma passagem de um mundo a outro, numa metáfora de subida ou descida – algo verticalizado, como a própria sociedade. Assim, há obrigações palpáveis diante dos mortos e de suas almas: seus aniversários de nascimento e de morte são lembrados, sua memória deve ser cultuada. Os mortos, além de pedir, também dão e oferecem, fazendo com que se possam descobrir tesouros ou acertar na loteria.

Na nossa sociedade, os espíritos retomam para assegurar a continuidade da vida, e os fantasmas aparecem para revelar que nossa vida material é relativa e que há outra realidade permanente por trás de tudo. Aqui os espectros estão também presos a promessas, bens materiais e emoções que só podem ser liberadas depois de receberem as orações apropriadas.

É a cosmovisão de uma sociedade que acredita mais nas relações sociais do que nos indivíduos. São elos morais que têm o poder de dobrar a vontade dos indivíduos, fazendo com que façam coisas não porque individualmente queremos, mas porque há uma demanda relacional.

Em um universo relacional como o brasileiro, é possível estudar a sociedade explorando o desenho dos seus espaços internos mais abrangentes. De modo que, quando falo em casa, rua e outro mundo, não estou me referindo somente a uma divisão física, mas a esferas de ação e significado social de onde se arma toda uma cosmologia. Em casa somos conservadores porque o tempo da residência, cíclico, que sempre volta na oscilação da vida e da morte, dos batizados e casamentos e favores. O espaço da rua é marcado pela ideia de progresso, um tempo de somas e acumulações sociais que contrasta, sem que tenhamos consciência, com o universo de duração da casa. O outro mundo – dos mortos, almas, anjos e demônios – no caso brasileiro, é um mundo de esperanças ainda irrealizadas. Um tempo que, a rigor, não passa e é tão fixo como são os nossos valores morais.

É possível ampliar mais um pouco o quadro para dizer que a diferença mais palpável entre o mundo católico (num sentido de uma cosmologia matriz, não como uma força acabada de religiosidade) e o universo protestante – que ampliou o individualismo, dando-lhe uma forma positiva definitiva, e abriu todas as portas para o capitalismo na demonstração clássica de Max Weber – é a sua evidente segmentação. Enquanto o universo protestante é uno e coeso, e as éticas múltiplas foram substituídas por uma única visão de mundo que opera hegemonicamente, o mundo católico é múltiplo e segmentado. É precisamente nestes sistemas que a relação vai se tornar um elemento básico. A relação como uma verdadeira ética social é algo que só pode ser devidamente avaliado quando se descobre que o mundo social brasileiro é altamente dividido e segmentado. Como relacionar tudo isso?

Um sistema complexo de festas que tem como objetivo englobar a sociedade é um modo de resolver esse problema, quando casa, rua e outro mundo, por um momento, estariam formando um todo sem divisões. A ênfase na possibilidade de um relacionamento concreto com os mortos seria outro mecanismo para obter essa conjunção num sistema altamente dividido. Nesta perspectiva pode-se entender não só o uso dos mortos e das nossas relações com eles na chamada “religiosidade popular”.

Se o outro mundo é um lugar de síntese moral entre “este mundo” e o “outro”, então os mortos são os mediadores regulares desta comunicação. A nossa noção de “alma” corresponde a uma memória viva do morto, a memória sendo um conceito que traduz o modo e a intensidade de uma relação social. Quanto mais saudade, mais intensa é a memória do morto ou do lugar. Quanto menos saudade, menos intensidade na recordação.

Há saudade e há memória quando alguma forma de relacionamento persiste entre os vivos e os mortos. E, se eles têm locais e instituições específicas onde podem ser vividos, então essas relações são permanentes mesmo sem a saudade. No caso do Brasil, por exemplo, pode desaparecer a relação pessoal entre um morto e seus sobreviventes, mas não desaparece a relação complementar e compensatória entre o mundo dos mortos e o mundo dos vivos.

Tudo isso nos permite entender o uso do morto pelos vivos na nossa sociedade. Seu papel, homólogo ao do “outro mundo”, seria, entre outras coisas, o de permitir a conciliação da rede de relações pessoais em torno de sua figura morta e de sua memória. Os mortos imediatamente se transformam, na nossa sociedade, em orientadoras de posições e relações sociais. O morto, portanto, serve como foco para os vivos dando forma concreta aos elos que ligam as pessoas de um grupo (ou comunidade, dependendo do morto e de sua qualificação social). O outro ponto que considero importante é que o culto dos mortos e das relações sociais estabelece um padrão de moralidade nas religiões populares. É que nelas o que se cultua realmente são as relações e as possibilidades (e esperança) de relações entre os dois lados da vida. De um lado temos os médiuns vivos, do outro os espíritos e deuses que “baixam” para estabelecer contato conosco, garantindo a eternidade da vida. Esses duplos mediadores nos asseguram a permanente continuidade entre a vida e a morte, sob o enquadramento de ideologias em que a compensação pelo outro mundo é visível e altamente funcional, e a ideia de renúncia ao mundo é uma marca registrada.

Aqui o popular terá de ser tomado na sua acepção de dominante e de universal. Ou seja, na sociedade brasileira, o que as “religiões populares” fizeram foi ordenar e sistematizar uma teologia da compensação e do relacionamento, permitindo que a comunicação entre este mundo e o outro se fizesse todos os dias, desde que os preceitos apropriados fossem seguidos. Aqui, a relação social é levada ao seu paradoxo e ao seu limite, pois o que é a possessão senão a ocupação de um mesmo corpo por duas pessoas sociais descontínuas? O possuído ou o “cavalo-de-santo” é aquele cuja relação com o espírito (ou orixá) se faz dentro do seu próprio corpo. Nisso reside a verdadeira lógica da religião relacional brasileira, que por meio de um encontro íntimo com o santo permite redefinir e resolver as questões que afligem os homens aqui embaixo.

Os mortos promovem a síntese entre espaços sociais descontínuos e apontam para uma alternância social e moral que parece ser importante em todas as sociedades relacionais. Os mortos, como estamos vendo, são entidades tipicamente relacionais e, como tal, demandam atenção e reverência. Por tudo isso, podemos entender por que no Brasil a morte mata, mas os mortos não morrem.

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Bibliografia:

DAMATTA, R. A casa e a rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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