Raízes do Brasil – Novos Tempos

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A aptidão para o social está longe de constituir um fator apreciável de ordem coletiva. A nossa conduta ordinária mostra um apego singular aos valores da personalidade configurada pelo recinto doméstico. Cada indivíduo afirma-se, ante os seus semelhantes, indiferente à lei geral (se esta lei contraria suas afinidades emotivas) e atento apenas ao que o distingue dos demais, do resto do mundo.

Assim, raramente nos aplicamos de corpo e alma a um objeto exterior a nós mesmos. Entre os brasileiros que se presumem intelectuais, é frequente a facilidade com que se alimentam de doutrinas diversas e com que sustentam as convicções mais díspares. No trabalho, buscamos a própria satisfação. as atividades profissionais são acidentes na vida dos indivíduos. São raros, no Brasil, os médicos, advogados, engenheiros, jornalistas, que se limitem a ser homens de sua profissão.

As nossas academias diplomam todos os anos centenas de novos bacharéis, que excepcionalmente farão uso dos ensinamentos recebidos durante o curso na vida prática. No vício do bacharelismo aparece também nossa tendência para exaltar a personalidade individual como valor próprio, superior às contingências. A origem da sedução exercida pelas carreiras liberais vincula-se ao nosso apego aos valores da personalidade. Daí, também, o fato de essa sedução sobreviver em um ambiente de vida material que já não a comporta.

Um amor pelas formas fixas e pelas leis genéricas é dos aspectos mais significativos do caráter brasileiro. O prestígio da palavra escrita, da frase lapidar, o horror ao vago, ao hesitante, que obriga à colaboração, ao esforço e à abdicação da personalidade, têm determinado nossa formação espiritual.

É possível compreender o bom sucesso do positivismo entre nós justamente por esse repouso que permitem ao espírito as definições irresistíveis e imperativas do sistema de Comte. Para seus adeptos, a importância desse sistema prende-se exatamente à sua capacidade de resistir à mobilidade da vida. É edificante a certeza que punham aqueles homens no triunfo final das novas ideias, o mundo acabaria por aceitá-las só porque a sua perfeição se impunha a todos os homens de boa vontade e bom senso. De todas as formas de evasão da realidade, a crença mágica no poder das ideias pareceu-nos a mais dignificante. Trouxemos de terras estranhas um sistema complexo de preceitos, sem saber até que ponto se ajustam às condições da vida brasileira e sem cogitar das mudanças que tais condições lhe imporiam.

Na verdade, a ideologia impessoal do liberalismo democrático jamais se naturalizou entre nós. Só assimilamos esses princípios até onde coincidiram com a negação de uma autoridade incômoda, confirmando nosso horror às hierarquias. A democracia no Brasil foi sempre um lamentável mal-entendido. Uma aristocracia rural e semifeudal importou-a e tratou de acomodá-la aos seus direitos ou privilégios. Incorporaram à situação tradicional, ao menos como fachada, alguns lemas que pareciam os mais acertados para a época e eram exaltados nos livros e discursos.

É curioso notar que os movimentos aparentemente reformadores, no Brasil, partiram quase sempre de cima para baixo. Nossa independência, as conquistas liberais que fizemos durante nossa evolução política, vieram quase de surpresa; a grande massa do povo recebeu-as com displicência ou hostilidade. Os campeões das novas ideias esqueceram-se de que as formas de vida não se “fazem” ou “desfazem” por decreto.

A persistência dos velhos padrões coloniais viu-se seriamente ameaçada em virtude da migração forçada da família real portuguesa para o Brasil, em 1808. A transição do convívio das coisas elementares da natureza para a existência mais regular e abstrata das cidades deve ter estimulado, em nossos homens, uma crise voraz. Os melhores, os mais sensíveis, puseram-se a detestar a vida.

Como em toda parte, os românticos brasileiros trataram de abandonar tudo que fizesse de nossa natureza tropical uma caricatura das paisagens arcádicas. Esse movimento não nos trouxe, é certo, nada de verdadeiramente novo. Apenas não nos devemos iludir a ponto de ver, nos movimentos de depressão e de exaltação dessa literatura romântica, algo além do que uma superfetação na vida brasileira. O amor às letras foi uma distração cômoda para o horror à nossa realidade cotidiana. Não reagiu contra ela; esqueceu-a, ou detestou-a, provocando desencantos precoces e ilusões de maturidade. Machado de Assis foi a flor dessa planta de estufa.

O amor bizantino dos livros pareceu garantidor de sabedoria e de superioridade mental, assim como o anel de grau ou a carta de bacharel. É digno de nota o valor que damos a esses símbolos; parece que as ideias não nos seriam acessíveis sem uma intervenção do corpóreo e do sensível.

Dizia-se de D. Pedro II, com alguma injustiça, que se dedicou mais aos livros do que serviu ao Estado. Ele pode ser comparado aos positivistas ambos símbolos dessa transformação em que a velha nobreza colonial, de senhores agrários, cede seu posto a esta outra, sobretudo citadina, que é a do talento e a das letras. Nenhuma congregação achava-se tão aparelhada para preservar o teor aristocrático de nossa sociedade tradicional como a das pessoas de imaginação cultivada e de leituras francesas, qualidades que se adquire numa infância e adolescência isentas de preocupações materiais imperiosas.

Há outros traços por onde nossa intelectualidade ainda revela sua missão conservadora e senhorial. Um deles é a presunção de que o verdadeiro talento é o de nascença, como a verdadeira nobreza, pois os trabalhos e o estudo acurado, por sua monotonia e reiteração, degradam o homem. Outro traço é o voluntário alheamento ao mundo circunstante. Ainda aqui cumpre considerar também a tendência para se distinguir no saber um instrumento capaz de elevar seu portador acima dos mortais. O móvel dos conhecimentos procurar o enaltecimento e a dignificação daqueles que os cultivam. O prestígio de determinadas teorias que trazem nomes estrangeiros e difíceis, e pelo simples fato de o trazerem, parece enlaçar-se estreitamente a semelhante atitude.

Não têm conta entre nós os pedagogos da prosperidade que, apegando-se a certas soluções, transformam-nas em requisito obrigatório e único de todo progresso. É bem característico, por exemplo, o que ocorre com a miragem da alfabetização do povo. A simples alfabetização, desacompanhada de outros elementos fundamentais da educação, que a completem, é comparável a uma arma de fogo posta nas mãos de um cego.

Essa e outras panacéias semelhantes, se de um lado parecem indicar um vício de raciocínio, de outro servem para disfarçar um invencível desencanto em face das nossas condições reais. Variam os discursos, mas têm sempre o mesmo sentido e as mesmas origens. Muitos dos que criticam o Brasil imperial por ter difundido uma espécie de bovarismo nacional, esquecem-se de que o que diminuiu foi nossa sensibilidade aos seus efeitos, não o mal em si.

Quando se fez a propaganda republicana, julgou-se que o país ia viver finalmente por si, sem precisar exibir formas políticas caprichosas e antiquadas; na realidade, foi ainda um incitamento negador o que animou os propagandistas: o Brasil devia entrar em novo rumo, porque “se envergonhava” de si mesmo, de sua realidade biológica. Aqueles que pugnaram por uma vida nova representavam, talvez, ainda mais do que seus antecessores, a ideia de que o país não pode crescer pelas suas próprias forças naturais: deve formar-se de fora para dentro, deve merecer a aprovação dos outros.

E a esse respeito não é exagero dizer que nossa República foi além do Império. Neste, o princípio do Poder Moderador corrompeu-se bem cedo, graças à inexperiência do povo, servindo de base para nossa monarquia tutelar, compreensível onde dominava um sistema agrário patriarcal. A divisão política, em dois partidos, representativos de pessoas e famílias, não de ideias, satisfazia nossa necessidade fundamental de solidariedade e luta. Finalmente o próprio Parlamento tinha uma função essencial a cumprir dentro do quadro da vida nacional: tornar visível essa solidariedade e luta.

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Bibliografia: HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. 26ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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One thought on “Raízes do Brasil – Novos Tempos

  1. Rolf dos novos e velhos tempos, de tantos progressos, de tanto de bom que está por vir (a melhor parte): PARABÉNS pelo site e pelos avanços por aqui!! Você merece tudo!! beijãos!

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