Raízes do Brasil: Trabalho e Aventura

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A conquista do trópico foi uma grande proeza histórica dos portugueses, que conseguiram explorar regular e intensamente as terras próximas à linha do Equador. Contudo, foi feita com desleixo e abandono.

Há dois princípios que regulam de formas distintas as atividades dos homens: o espírito aventureiro e o espírito trabalhador. Para o primeiro grupo, importa o objeto final, o ponto de chegada; as etapas imediatas podem ser inclusive descartadas. Seu ideal é colher o fruto sem plantar a árvore. Os projetos para ele são vastos, de horizontes distantes. O trabalhador, ao contrário, enxerga primeiro a dificuldade a vencer. Mede todas as possibilidades de aproveitamento, até do insignificante. Trabalha com o imediato, seu campo visual é restrito.

As nações onde o tipo aventureiro predominava foram as que tiveram sucesso na conquista do novo mundo. Isso vale também para a Inglaterra, cujo cidadão típico (de acordo com a visão dos estrangeiros que visitavam a Grã-Bretanha antes da era vitoriana) tende à indolência e à prodigalidade; estima a boa vida, acima de tudo.

Esse espírito aventureiro e indolente é o que explica a aptidão ibérica à caça de bens materiais em outros continentes, à prosperidade sem custo, de posições e riquezas fáceis. É uma influência decisiva na nossa formação, elemento orquestrador de fatores como as raças, costumes e condições naturais, que facilitou sua adaptação. Onde não havia pão de trigo, aprendiam a comer o que era da terra; habituaram-se a dormir em rede, a mascar fumo. Dos índios também pegaram o uso de instrumentos de caça e pesca.

O modelo de plantio adotado nas lavouras de cana de açúcar já era instituído em Ilha da Madeira, com negros de Guiné utilizados como mão de obra. Apesar de hábeis com atividades extrativistas, na caça, na pesca e na criação de gado, os índios não assimilavam noções de ordem, constância e exatidão, tão importantes para o europeu. O trabalho metódico necessário aos canaviais ficava inviável. Isso tornou a presença do negro indispensável.

O latifúndio, obra pioneira de portugueses e espanhóis, apareceu em função das circunstâncias da produção e do mercado: a Europa produzia gêneros agrícolas somente para consumo próprio e carecia de produtos naturais dos climas quentes. Tamanho mercado associado à alta qualidade e quantidade de terras disponíveis tornou possível e fomentou a expansão do latifúndio monocultor, a verdadeira unidade de produção dessas terras. Não havia espaço para expansão comercial e manufatureira, já que são fundadas no trabalho livre.

O que o português vinha buscar era a riqueza vinda da ousadia, não do trabalho. A maneira como lidavam com a terra, apenas devastada e não cuidada, aproxima sua atividade tanto à agricultura quanto à mineração. A atividade agrícola não tinha prestígio em Portugal, e as pessoas que cuidavam disso lá não poderiam vir dado à baixa população lusitana à época. Isso contribuiu para que a lavoura, no Brasil, não tenha apresentado progressos técnicos que elevassem o nível da produção, bem como a dificuldade em lidar com uma natureza distinta da europeia. O arado, por exemplo, foi pouco usado em função da resistência causada pela vegetação típica encontrada aqui, a florestal. Não era costume, também, o uso de fertilizantes, que ajudam a revigorar a terra gasta. Logo, era comum os lavradores irem buscar nas terras férteis mato adentro constantemente. A atividade rudimentar e predatória, que visam o ganho imediato, eram quase impostas também pelas condições locais, fosse o tipo de vegetação, fosse a pouca posse de recursos. Isso explica porque inclusive colonos germânicos, afeitos ao trabalho paciente e sistemático, reproduzissem tais práticas imediatistas.

Ainda que houvesse outros colonizadores de áreas em que também predominava uma economia rural, fundada no trabalho escravo, na monocultura e na grande propriedade, os portugueses se destacavam pelo pobre tratamento que davam à terra. Os métodos que puseram e vigor no Brasil eram similares aos praticados antes deles pelos indígenas. Eles mais repetiam o que era feito e o que lhes ensinava a rotina, ao contrário do que era feito pelos espanhóis no restante da América, que se sobrepunham à cultura local impondo seus traços às pessoas e à terra.

Os portugueses não apresentavam qualquer orgulho de raça. À época do descobrimento, já eram um povo de mestiços. Suaíles, indígenas da África Oriental, diferenciavam os povos da Europa como “europeus” e “portugueses”.

Antes de 1500, já era bastante comum o uso de escravos na própria metrópole, a ponto de em quase toda habitação haver ao menos uma negra. A relação entre dominador e dominado era próximo, de proteção e predileção em vez de posse. A questão da raça não era determinante nas limitações impostas a negros e mulatos a determinados cargos, direcionados a brancos puros. O trabalho servil constituía um impedimento mais atuante, marcando tanto quem o exercia quanto os descendentes. A aversão ao esforço disciplinado, o comportamento arredio, a preferência a atividades predatórias em vez de produtivas, características que tornavam os indígenas e mamelucos (mestiço de branco com índio) inaptos ao trabalho servil, permitiu que obtivessem vantagens negadas aos negros, como quando eram considerados aptos a cargos que não podiam ser exercidos por negros ou mulatos. Deve ser por isso que coube ao índio o papel do herói medieval nacional no romantismo, como nas obras de Gonçalves Dias e José de Alencar, enquanto o negro era a vítima ou o rebelde, na melhor das hipóteses. O casamento entre índios e brancos era permitido e chegou mesmo a ser estimulado, podendo representar vantagem para obtenção de empregos e recriminado o uso de termos considerados pejorativos como “caboclo”, por exemplo.

A escravidão e a predominância latifundiária na economia colonial prejudicaram a formação, caracterização e organização das categorias profissionais. Desde a conquista de Lima, há registros de grêmios que defendiam os exames de competência e direitos dos profissionais, que iam de descanso dominical obrigatório a pagamento de pensão de velhice para a família do agremiado. Esses grêmios contribuíram durante anos para a estabilidade, prosperidade e riqueza da colônia.

No Brasil, não havia estímulo ao exercício profissional por vocação ou mesmo para a prática que separa amadores de profissionais. O indivíduo habilitado para determinado ramo normalmente dedicava-se a tantos outros, desde que ampliasse a possibilidade de ganho. Mesmo em tendas comerciais eram comuns as combinações mais disparatada possíveis, como a possibilidade de comprar ferradura de um boticário. A dificuldade na formação de agremiações tem a ver também com incapacidade para a atividade coletiva do povo à época. Quando ocorria, era motivado por interesse individual, em vez de uma cooperação que contribuísse para a ordenação da vida em comum, que convém a uma sociedade em vias de organizar-se politicamente.

A influência do negro, como negro e como escravo, permeava a população contribuindo com suavidade e doçura todas as esferas da vida colonial. Exprime-se na literatura, música e artes em geral, em função do exótico e sensualidade malandra. A colonização holandesa seria avessa a tal influência dissolvente, dado o espírito empreendedor metódico e coordenado e a capacidade de trabalho daquele povo. A falta de imigração em larga escala, motivada pela prosperidade holandesa, impediu a disseminação deste espírito.

O progresso urbano ajuda a diferenciar o processo colonizador holandês do português. Ao passo que o Brasil as cidades continuavam simples e dependentes do campo, Recife vivia por si: parques, institutos científicos e culturais, importantes organismos políticos, como o Parlamento, um dos primeiros de que se tem registro no Ocidente. Tal grandeza, contudo, não atingia o ambiente rural, que permanecia sob o comando luso-brasileiro (esforços para trazer camponeses direto da Holanda para que se misturassem aos portugueses nas lavouras não obtiveram sucesso) – a sofisticação urbana não implicava em poder econômico. O idioma nórdico era uma barreira, o português e castelhano eram mais facilmente aprendidos pelos gentios e africanos. A religião católica, mais transigente e menos exclusivista do que o protestantismo, conseguiu mais adeptos mais dedicados a sua fé. A ausência do orgulho de raça entre os portugueses, que permitia maior adaptação aos costumes africanos e americanos, facilitou o predomínio no processo colonizador no Brasil.

Nota ao capítulo 2 – Persistência da lavoura tipo predatório.

R. Cleary, médico norte-americano que viveu em Lajes (Santa Catarina), observou, no final do período monárquico, que imigrantes como os alemães, que dominavam técnicas avançadas na lavoura, utilizavam aqui os métodos rudimentares correntes, como enxadas, pás ou cavadeiras de pau. A partir de então, a técnica na agricultura evoluiu, ainda que priorizando a economia de esforço em vez de melhora na produtividade. Por que houve esse retrocesso por parte dos colonizadores europeus, que adotaram inclusive as técnicas indígenas?

A indisposição para as lides agrícolas dos europeus, não somente dos ibéricos, foi tema de estudo do Dr. Herbert Wilhelmy, publicado no começo do século XX. O autor é contrário à tese de que o uso da queimada fosse óbvio para o proprietário e não diferisse tanto de outros métodos para desbravamento de mato virgem. A queda no rendimento é significativa em comparação a terra em que não houve queimada, seja pelo prejuízo à fertilidade do solo quanto pela debandada dos pássaros, importante agente contra as pragas. Para Wilhelmy, a persistência das práticas arcaicas da lavoura nas colônias alemãs do Sul do Brasil se deve, em primeiro lugar, à conformação do terreno, encostas de morro da região serrana, que dificulta o uso do arado. Este método também foi posto de lado por ser contraproducente em certas terras tropicais e subtropicais. Dependendo da profundidade da aradura, substâncias orgânicas necessárias ao desenvolvimento das plantas cultivadas podem ser sepultadas sob terras isentas de microrganismos. Foi bem sucedido em lugares como o Paraguai por utilizar a aragem em profundidade menor do que a praticada na Europa.

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Bibliografia:

HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. 26ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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