O Poder em Movimento: Confronto Político e Movimentos Sociais

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Neste capítulo, exponho os fatores tal como serão usados no resto do livro para analisar e levantar questões sobre o confronto político e os movimentos sociais. Antes de fazê-lo, entretanto, será útil ver como as gerações anteriores de ativistas e estudiosos conceberam o problema da ação coletiva.

Marx, Lenin e Gramsci

Neste livro, o conflito entre desafiantes e autoridades será considerado como uma parte normal da sociedade e não como uma aberração. Esta é a razão de começarmos com o importante teórico que considerou o conflito como algo inscrito na estrutura da sociedade – Karl Marx.

MARX E O CONFLITO DE CLASSES

Para Marx, as pessoas se engajarão em ações coletivas quando sua classe social entrar numa contradição totalmente desenvolvida com seus antagonistas. No caso do proletariado isso se referia ao momento em que o capitalismo o forçou à produção em larga escala nas fábricas mas desenvolveu os recursos para agir coletivamente.

LENIN E A MOBILIZAÇÃO DE RECURSOS

Lenin propôs a criação de uma elite de revolucionários profissionais. Esta “vanguarda” agiria como uma guardiã autonomeada dos reais interesses dos trabalhadores.

GRAMSCI E A HEGEMONIA CULTURAL

Para Antonio Gramsci, seria necessário desenvolver a própria consciência dos trabalhadores e produzir, entre os trabalhadores, um consenso em torno do partido, dar-lhes capacidade para tornar inciativas autônomas e que pudessem obter adeptos entre grupos não-operários.

Cada um desses teóricos enfatizou um elemento diferente da ação coletiva. Mas nenhum deles especificou as condições políticas em que se poderia esperar que os trabalhadores se mobilizassem pelos seus interesses – que chamaremos de problema das oportunidades e restrições políticas.

Cientistas sociais, movimentos sociais e ação coletiva

Esses três elementos da teoria marxista tem fortes paralelos com as teorias recentes sobre a ação coletiva e movimentos sociais. Os teóricos do comportamento coletivo dos anos 1950 e 1960 se detiveram nos descontentamentos responsáveis pela mobilização. Os teóricos da mobilização de recursos dos anos 1960 e 1970 concentraram-se na liderança e na organização; nos anos 1980 e início da década de 1990, os teóricos do enquadramento interpretativo e identidade coletiva trataram das fontes de consenso em um movimento.

DESCONTENTAMENTOS E TEORIA DO COMPORTAMENTO COLETIVO

Como os marxistas, os sociólogos não-marxistas levaram muito tempo para desenvolver uma visão politicamente conectada dos movimentos sociais. De fato, por muitos anos, consideraram os movimentos fora das instituições normais da sociedade.

As condições da luta política

Os estudiosos norte-americanos foram os primeiros a desenvolver uma abordagem mais política dos movimentos, que se centrava em várias versões do conceito que passou a ser conhecido como “estrutura de oportunidades políticas”. A pedra fundamental desta tradição foi colocada por Charles Tilly, no seu clássico de 1978 From Mobilization to Revolution. Tilly afirmou que o desenvolvimento do movimento social nacional foi concomitante, e interdependente, ao da ascensão dos estados nacionais consolidados. Logo, os movimentos podiam ser estudados apenas em conexão com a política e sua estratégia, estrutura e sucesso iriam variar em tipos diferentes de Estado.

OPORTUNIDADES E RESTRIÇÕES POLÍTICAS

Entendo oportunidades políticas como dimensões consistentes da luta política que encorajam as pessoas a se engajar no confronto político. Entendo as restrições políticas como fatores que desencorajam o confronto. Não há uma fórmula simples para prever o surgimento do confronto. Como resultado, o termo “estrutura de oportunidades políticas” deveria ser entendido como um conjunto de indícios de quando surgirá um confronto político que pode levar a uma interação sustentada com autoridades, e, portanto, a movimentos sociais.

O REPERTÓRIO DO CONFRONTO

Como no caso dos rituais religiosos e celebrações civis, o confronto político não nasce da cabeça dos organizadores, mas está culturalmente inscrito e é socialmente comunicado. Os movimentos sociais são repositórios de conhecimento de rotinas particulares numa história da sociedade, o que os ajuda a superar a carência de recursos e de comunicação que é típica entre os pobres e desorganizados. Por exemplo, os trabalhadores sabem como fazer greves porque gerações de trabalhadores as fizeram antes deles.

Mobilização do consenso e identidades

A coordenação da ação coletiva depende da confiança e da cooperação geradas entre os participantes por meio de entendimentos e identidades compartilhados – ou dos quadros interpretativos da ação coletiva que justificam, dignificam e animam a ação coletiva. Os movimentos fazem um apaixonado “trabalho de enquadramento interpretativo”: configurando tais descontentamentos como reivindicações mais amplas e vibrantes. Utilizando identidades coletivas e moldando novas, os desafiantes estabelecem os limites de seus adeptos futuros e definem seus inimigos através de atributos e maldades reais ou imaginários.

Estruturas de mobilização

Embora sejam os indivíduos que decidem optar ou não pela ação coletiva, é nos seus grupos face a face, nas suas redes sociais e nas estruturas conectivas existentes entre eles que ela é mais frequentemente ativada e mantida. É a vida no interior dos grupos que transforma o potencial para a ação em movimentos sociais.

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Resumindo: a política de confronto é produzida quando as oportunidades políticas se ampliam, quando demonstram potencial para alianças e quando revelam a vulnerabilidade dos oponentes. O confronto se cristaliza em movimento social quando ele toca em redes sociais e estruturas conectivas embutidas e produz quadros interpretativos de ação coletiva e identidades de apoio capazes de sustentar o confronto com oponentes poderosos. Apresentando formas familiares de confronto, os movimentos tornam-se pontos locais que transformam as oportunidades externas em recursos. Os repertórios de confronto, redes sociais e quadros culturais diminuem os custos de se atrair pessoas para a ação coletiva, produz confiança de que não estão sozinhos e dá um sentido mais amplo às suas reivindicações. Juntos, esses fatores deflagram os processos dinâmicos que tornaram os movimentos sociais historicamente centrais na mudança política e social.

A dinâmica do movimento

O poder de acionar sequências de ação coletiva não é o mesmo que o poder para controlá-las ou mantê-las. Se a ação coletiva é bem-sucedida essas oportunidades produzem ciclos mais amplos de confronto. Como resultado desta dinâmica de difusão e criação, os movimentos tem sucesso ou falham como resultado de forças que estão fora do seu controle. Isso nos leva ao conceito de ciclo de confronto.

Podemos começar a estudar os movimentos sociais como confrontos isolados entre atores sociais singulares e seus oponentes, mas chegamos rapidamente às redes políticas mais complexas – as ações que começam nas ruas são resolvidas nos salões do governo ou pelas baionetas do exército. Os movimentos são parte das lutas nacionais pelo poder.

Invista mo Resumo da Obra

Bibliografia:

Tarrow, Sidney. Poder em Movimento. Petrópolis: Vozes, 2009.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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