O Poder em Movimento: Introdução

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International Gherald Tribune, 17/03/1997. A manchete de hoje do Trib é sobre a recusa da União Europeia em mandar tropas para a Albânia para lidar com as consequências do colapso de um esquema financeiro que levou à falência centenas de milhares de cidadãos e os tumultos resultantes do escândalo, que levaram multidões às ruas.

Confronto político e movimentos sociais

As pessoas comuns irrompem frequentemente nas ruas e tentam exercer o poder por meios contenciosos contra estados nacionais ou opositores. O confronto político ocorre quando pessoas comuns, aliadas a cidadãos mais influentes, juntam forças para fazer frente às elites, autoridades e opositores. Entendo por “movimentos sociais” as sequências de confronto político baseadas em redes sociais de apoio e em vigorosos esquemas de ação coletiva e que, além disso, desenvolvem a capacidade de manter provocações sustentadas contra opositores poderosos.

A ABORDAGEM DO ESTUDO

Neste livro, ofereço um amplo quadro teórico para entender o lugar dos movimentos sociais, dos ciclos de confronto e das revoluções na categoria mais geral do confronto político.

O ato irredutível que está na base de todos os movimentos sociais, protestos e revoluções é a ação coletiva de confronto. A ação coletiva torna-se de confronto quando é empregada por pessoas que não tem acesso regular às instituições, que agem em nome de exigências novas ou não atendidas e que se comportam de maneira que desafia os outros ou as autoridades. A ação coletiva de confronto é a base dos movimentos sociais porque é o principal e quase sempre o único recurso que as pessoas comuns tem contra opositores mais bem equipados ou estados poderosos.

Veremos que reunir pessoas numa interação sustentada com opositores exige uma solução social. Esta solução envolve, em primeiro lugar, preparar os desafios coletivos; em segundo, instigar redes sociais, objetivos comuns e quadros culturais; e, em terceiro, construir a solidariedade através das estruturas de ligação e das identidades coletivas para manter a ação coletiva. Esses são os principais processos dos movimentos sociais.

AS PROPRIEDADES BÁSICAS DOS MOVIMENTOS

Em vez de ver os movimentos sociais como expressões de extremismo, privação e violência, eles são mais bem definidos como desafios coletivos baseados em objetivos comuns e solidariedade social numa interação sustentada com as elites, opositores e autoridade. Esta definição tem quatro propriedades empíricas: protesto coletivo, objetivo comum, solidariedade social e interação sustentada. Vamos examinar sumariamente cada uma delas.

Desafio coletivo As ações mais características dos movimentos sociais são os desafios contenciosos. Devido à falta de recursos estáveis – dinheiro, organização, acesso ao Estado – os movimentos usam o desafio coletivo para tornarem-se pontos de atração para apoiadores, ganharem a atenção de opositores e terceiros e criar eleitores para serem por eles representados.

Propósito comum Um motivo básico para as pessoas participarem de movimentos é a organização de reivindicações comuns aos opositores, autoridades ou elites.

Solidariedade e identidade coletiva O denominador mais comum dos movimentos sociais é, portanto, o “interesse”, mas o que traduz o potencial de ação de um movimento é o reconhecimento dos seus participantes de seus interesses comuns. Os líderes só podem criar um movimento social quando liberam os mais profundos sentimentos de solidariedade ou identidade. Isto é quase certamente a razão do nacionalismo e a afiliação étnica ou religiosa terem sido bases mais sólidas de organização de movimentos do que o imperativo baseado numa categoria, a classe social (ANDERSON, 1990; SMITH 1996).

Sustentando o confronto político É apenas quando a ação coletiva contra antagonistas é sustentada que um episódio de confronto se torna um movimento social. É isto que distingue o movimento social das formas iniciais de protesto.

Oportunidades políticas como sugestões estruturadoras

As mudanças nas oportunidades e nas restrições políticas criam os incentivos mais importantes para iniciar novas fases de confronto. Estas ações, por sua vez, criam novas oportunidades tanto para os insurgentes originais quanto para os retardatários e, eventualmente, para os opositores e detentores de poder. Os ciclos de confronto que se seguem são baseados nas externalidades obtidas e criadas por esses atores. Os resultados de tais ondas de confronto dependem não só da justiça da causa ou do poder de persuasão de qualquer movimento singular, mas de sua extensão e das reações das elites e de outros grupos.

UM ESBOÇO DO LIVRO

Examinar os parâmetros da ação coletiva é a primeira tarefa do cap. 1. Mas o capítulo aborda outros dois problemas importantes: a dinâmica da mobilização depois de iniciada e, as razões pelas quais os resultados dos movimentos são tão variados e falhem com tanta frequência em atingir os objetivos estabelecidos.

Na parte I mostro como e onde os movimentos sociais nacionais se desenvolveram no Ocidente no século XVIII, quando os recursos para transformar a ação coletiva em movimentos sociais puderam ser reunidos pela primeira vez em períodos sustentados de tempo e num espaço territorial. Uma vez estabelecida a “ação coletiva modular”, ela foi difundida através da expansão do Estado, da imprensa e da associação e da difusão dos repertórios de confronto através do mundo. Este é o argumento do segundo ao quarto capítulos.

No cap. 5 analiso as mudanças nas oportunidades e restrições políticas que deflagram episódios de confronto. No cap. 6 exponho os três principais aspectos do confronto político empregados pelos movimentos políticos – violência, ruptura e formas convencionais de ação. No cap. 7 examino como os “quadros interpretativos” do simbolismo e da ação coletiva mobilizam os apoiadores e os ajudam a elaborar as reivindicações. No cap. 8 trato das formas principais de solidariedade que ajudam a formar as organizações de movimentos. Estes são os quatro poderes principais que observo num movimento.

Na terceira seção do livro analiso a dinâmica e resultados dos movimentos sociais. A partir do século XVIII, o confronto pode se espalhar para sociedades inteiras, produzindo os períodos de turbulência e reorganização que chamo de “ciclos de confronto”. Como mostrei no cap. 9, a importância desta mudança é que, uma vez começado o ciclo, há uma redução dos custos da ação coletiva para outros atores e uma difusão dos quadros interpretativos principais e dos modelos de ativismo. Em termos político-institucionais e pessoal-culturais, os efeitos dos ciclos deixam atrás de si uma ampliação permanente na participação, na cultura popular e na ideologia, como afirmo no cap. 10.

Isso nos leva ao confronto político da atualidade e a dois importantes assuntos novos: a “globalização” e o possível surgimento de uma “sociedade de movimentos”. A questão central colocada pelas novas ondas de movimento é se eles estão criando uma cultura transnacional de movimentos, que ameaça a soberania do Estado nacional. Examino essas questões no cap. 11.

Uma última questão nos levará dos movimentos transnacionais quase sempre violentos do mundo não-ocidental para os movimentos civis mais pacíficos associados às democracias liberais.

Houve uma expansão de conflitos disruptivos por todo o mundo nos anos 1990. Mas, da mesmo forma que a campanha eleitoral e a greve foram absorvidas em rotinas institucionais durante o século XIX, muitas destas novas formas de participação surgidas a partir dos anos 1960 estão sendo domesticadas no fim do século XX. A forma do futuro dependerá não de quão violento ou disseminado tenha se tornado o confronto, mas de como ele for absorvido no – e transformar o – Estado nacional.

Invista mo Resumo da Obra

Bibliografia:

Tarrow, Sidney. Poder em Movimento. Petrópolis: Vozes, 2009.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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