Navegantes, Bandeirantes, Diplomatas: Viagens de Colombo

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1.1 Gênova e o Mediterrâneo

É incontável o número de livros sobre o mais célebre dos navegantes, Cristóvão Colombo, embora pouco se saiba de incontroverso sobre sua vida. Parece hoje provado que nasceu realmente em Gênova, em 1451, no seio de antiga família de tecelões locais. A cidade, sede da poderosa República de Gênova, era um dos primeiros portos do Mediterrâneo, um núcleo de conhecimentos marítimos, em especial cartográficos, de importância única na época. Menino pobre, cedo foi ao mar. Com quatorze anos, Colombo já se teria engajado em algum navio, dos muitos que abarrotavam o porto de Gênova.

1.2 Portugal e o Atlântico

Em 1476, o centro das atividades marítimas era Lisboa. Embora não haja um só documento sobre a estada de Colombo em Portugal, não há dúvida de que nos oito anos em que lá vive concebe o projeto de chegar às Índias navegando para o Ocidente.

Não se sabe exatamente quando, mas um dia, em 1483 ou 1484, Colombo teve a coragem de fazer a D. João II de chegar ao Oriente navegando para o Ocidente. D. João II passou a proposta a uma comissão de entendidos, que não demorou a dar seu veredito em contrário.

Colombo não oferecia muito, fora sua excepcional experiência como navegante. A causa principal da recusa parece, entretanto, ter sido outra. Os portugueses mantinham, na África, um próspero comércio de escravos, ouro, marfim e algumas especiarias de boa aceitação nos mercados europeus, como a pimenta malagueta. Em dezembro de 1488, aportou no Tejo a caravela de Bartolomeu Dias com a notícia de que a África era contornável, que pelo cabo da Boa Esperança se poderiam atingir as Índias. Tudo indicava que era dos portugueses, não de Colombo, a opção correta.

1.3 A empresa das Índias

A partir de que dados haveria arquitetado o plano de chegar à Ásia navegando para o Oeste? Quase todos os biógrafos dedicam mais tempo aos autores que teriam influenciado Colombo do que aos conhecimentos práticos adquiridos nas suas experiências pessoais de navegante. A verdade é que a razão oculta que lhe dava tanta confiança tem uma explicação simples: não havia segredo. A excepcional experiência de navegante muito atento às coisas do mar e a coragem de fertiliza-la com sua imaginação é que o levaram à certeza de que as Índias estavam ali do outro lado do Atlântico.

Colombo chegou a Portugal já com a experiência da navegação do Mediterrâneo; foi, entretanto, nos anos em que viveu entre os lusos e com eles viajou que adquiriu sua ampla experiência de navegação pelo mar aberto e pode conhecer tudo que os portugueses sabiam do “mar oceano”. Na época de Colombo, só os portugueses sabiam navegar no “mar oceano”, como era conhecido o Atlântico. Tinham desenvolvido para isso um tipo de navio, a caravela, que enfrentava ventos desfavoráveis melhor do que os outros.

1.4 A viagem descobridora

Recusada a proposta por D. João II, Colombo partiu para a Espanha. Não demora em expor aos reis Fernando e Isabel seu plano. Uma comissão de entendidos chefiada pelo Bispo de Talavera, confessor da rainha, é indicada, que dá seu parecer contrário, em 1487. Mas assim mesmo os reis o retêm na Espanha, deixando uma fresta para suas esperanças. A última palavra, de abril de 1492, sete anos depois de Colombo chegar ao país, foi também negativa. Dias depois, por causas não muito claras, os reis resolveram concordar com a proposta. Colombo não demora em assinar as chamadas “Capitulaciones de Santa Fé”, pelas quais os reis lhe proporcionavam navios, tripulações e o faziam Almirante Maior do Mar Oceano, Vice-Rei e Governador-Geral das terras que descobrisse.

Em Palos, porto atlântico no sul da Espanha, Colombo arma sua frota de três barcos (Niña, Pinta e Santa Maria) e cerca de noventa tripulantes. No dia 3 de agosto de 1492, a frota levanta ferros e em seis dias chega a Gomerra, uma das Canárias, onde ancora durante 28 dias. Na madrugada de 12 de outubro, finalmente ouviu-se da caravela Pinta o grito que seus comandados já não mais esperavam, “tierra, tierra”.

Colombo chamou a ilha avistada – Guanahani, na língua dos nativos – de São Salvador. Deixou um grupo de 28 homens em Hispaniola (Haiti) e voltou à Espanha, onde esperava ser recepcionado com todas as honras. Não se decepcionou. Logo ao desembarcar em Palos, em 15 de março de 1493, recebeu uma carta dos reis católicos, cujo envelope destinava-se a “Don Cristóbal Colón, Almirante de la Mar Océano, Virrey y Gobernador-General de las islas que descubrió en las Indias”.

1.5 Outras viagens

Três outras vezes esteve Colombo nas suas “Índias”. Descobriu mais terras nessas viagens do que qualquer outro navegante de seu tempo, do passado e do futuro. Na primeira, a descobridora, já havia conhecido várias ilhas das Bahamas e duas Grandes Antilhas, Cuba (Joana) e Haiti (Hispaniola). Na segunda, com uma grande frota de dezessete barcos, entre 25 de setembro de 1493 e 11 de julho de 1496, identificou Dominica, Guadalupe e outras Pequenas Antilhas, Porto Rico e Jamaica (Santiago); fundou, ademais, Isabela, na costa norte de Hispaniola, o primeiro núcleo urbano das Américas (alguns anos depois removido para Santo Domingo, na costa sul). Dessa viagem já voltou, no entanto, com fama de mau administrador, pelas várias revoltas havidas em Isabela e pelos resultados econômicos decepcionantes: nem descobriu ouro, nem encontrou as ricas cidades do Grão-Mogol, como prometera.

Na terceira viagem, entre 30 de maio de 1498 e fins de novembro de 1500, com seis barcos, desembarcou perto do delta do Orinoco (na atual Venezuela), em 5 de agosto de 1498. Chegando a Isabela, reassume o Governo. Não encontra as coisas bem e não consegue melhorá-las. Depois de muitas queixas e acusações, os reis nomeiam outro governador Francisco Bobadilha. Este, mal chegado a terra, no turbilhão de motins, traições e execuções, que davam a tônica da administração de Colombo, acaba por prendê-lo e nesse estado enviá-lo à Espanha. Transportado para Sevilha, é desacorrentado por ordem real somente seis semanas depois.

Após a terceira viagem, não recuperou mais o prestígio na Corte, mas ainda conseguiu equipar três navios para a última de suas jornadas, de 9 de maio de 1502 a 7 de novembro de 1504. Seu objetivo nessa navegação era resolver o intrincado problema geográfico do Caribe, isto é, a relação das terras descobertas com o continente asiático.

Não teve apoio algum do novo governador de Santo Domingo, Oviedo, e sofreu as agruras de passar longos meses como náufrago na Jamaica, depois de costear boa parte da América Central, explorando vários portos à procura da passagem inexistente. Com grande dificuldade, conseguiu afinal, com vinte companheiros, fretar um barco para regressar à Europa. Morreu em Valladolid, cercado de alguns familiares, evitado pela corte, quase esquecido pelos divulgadores das descobertas, em 19 de maio de 1506. Não sabia que descobrira um continente, que iniciara uma era.

1.6 O mundo de Colombo

Tudo podia passar pela cabeça de Colombo, menos que havia um enorme continente impedindo a comunicação marítima entre a Europa e a Ásia. Até o final, acreditou que chegara a uma região de arquipélagos que não ficaria longe de Cipango (Japão) e das grandes cidades de Cataio (China).

Colombo era profundamente religioso; as ideias de ser um cruzado, de levar o Deus verdadeiro aos pagãos, não o abandonavam nunca; nem as ilusões − outro traço medieval − de haver um paraíso terrestre, que imaginou, em certa ocasião, estar nas cabeceiras do grande rio cuja foz conheceu na Península de Pária (Orinoco). Sua personalidade tinha também ângulos renascentistas, como o interesse pelos clássicos e, principalmente, a propensão para observar os fenômenos da natureza. O grande navegante era, pois, um típico homem de transição entre duas épocas.

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Bibliografia:

GOES FILHO, Synesio Sampaio. Navegantes, bandeirantes, diplomatas: um ensaio sobre a formação das fronteiras do Brasil. Brasília: FUNAG, 2015.

Agradecemos à Patrícia Derolle, do E-Internacionalista, pela dica.

A íntegra da obra pode ser acessada aqui.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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