Navegantes, Bandeirantes, Diplomatas: Relatos de Vespúcio

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3.1 Espanhóis na costa norte

É compreensível a primazia espanhola em revelar o litoral norte da América do Sul, afinal, é o prolongamento atlântico do contorno terrestre do mar do Caribe. No estágio atual dos conhecimentos, parece provado que além da de Colombo, três outras pequenas frotas de bandeira espanhola tocaram o norte da América do Sul, antes de Cabral chegar a Porto Seguro: a de Alonso de Ojeda, a de Vicente Yañes Pinzón e a de Diego de Leppe. Os dois últimos teriam margeado a costa norte do Brasil desde o cabo geralmente identificado como o cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, até pelo menos o Amapá.

Ojeda, cronologicamente o primeiro dos três a ver o litoral norte da América do Sul, é personagem não tão conhecido, mas nada opaco. Já aos 22 anos era capitão de uma das caravelas da segunda viagem de Colombo. Pouco depois, conseguiu armar uma frota que se propunha a descobrir mais terras e a explorar a “costa das pérolas”, recém‑identificada pelo genovês. Tocou o continente em 1499. Com Ojeda vieram dois navegantes que ofuscariam sua memória: o piloto e cartógrafo Juan de la Cosa, autor do primeiro mapa em que aparecem as descobertas de Colombo e seus imediatos seguidores; e um certo comerciante florentino, Américo Vespúcio.

3.2 O enigma das cartas

Entra em cena Américo Vespúcio, o mais controvertido personagem do período das grandes descobertas. As opiniões sobre o valor de seus feitos vão de um polo a outro.

De família influente, ao contrário de muitos outros navegantes de sua época, Vespúcio nasceu e viveu em Florença. Em 1491, aos 37 anos, foi para Sevilha trabalhar numa agência do banco dos irmãos Lorenzo e Giovanni di Pier Francesco dei Medici, que se ocupava também de suprimentos marítimos. Nessa função, ajudou a equipar a primeira frota de Colombo. Tornou‑se um entendido em cartografia e nos processos de medir distância pelos astros. Participou, pessoalmente, de pelo menos duas expedições.

O que se sabe das viagens de Vespúcio é pouco mais do que ele mesmo diz em suas cartas. São duas as cartas cuja publicação, entre 1503 e 1506, trouxe ao florentino renome imediato e fez que muitos o considerassem o principal descobridor do continente: a Mundus Novus, que dirigiu a um dos chefes de sua empresa, Lorenzo; e a chamada Lettera al Soderini, dirigida ao primeiro magistrado de sua cidade natal, Piero Soderine. A Mundus Novus descreve sua viagem ao Brasil, numa frota portuguesa que visitou o país em 1501, logo após a descoberta de Cabral. A Lettera relata as quatro viagens que teria feito à América: duas em frotas espanholas pelas Caraíbas e pela costa norte da América do Sul, em 1497 e 1499; e duas com os portugueses, pela costa leste do Brasil, em 1501 e 1504. Não foi apenas por motivos fúteis que suas cartas se tornaram best‑sellers do século XVI. Nelas existem descrições de costumes, comentários sobre animais e plantas, citações de grandes autores, Plínio, Dante, Petrarca.

As proezas de Vespúcio, desde cedo, encontraram ouvidos descrentes. O Bispo Bartolomeu de Las Casas, por volta de 1570, já o via como um usurpador da glória alheia, tachando de mentirosa a afirmação da Lettera de que teria tocado a América do Sul antes de Colombo.

A situação com o passar dos anos foi‑se complicando, com os sucessivos descobrimentos em arquivos de Florença, no final do século XVIII e começo do XIX, de três novas epístolas de Vespúcio. Ao contrário das anteriores, impressas, estas eram manuscritas, embora não pelo próprio Vespúcio. São conhecidas pelos nomes dos pesquisadores que as encontraram: a Bandini, de 18 de julho de 1500, trata da viagem que fez em 1499‑1500, com os espanhóis, de forma contraditória com a Lettera, pois incorpora dados das duas primeiras viagens aí referidas; a Bartolozzi, de setembro ou outubro de 1502, descreve a terceira viagem de Lettera (de que trata também a Mundus Novus), a que fez ao Brasil em 1501‑1502; e a Baldelli, datada do Cabo Verde, em 4 de junho de 1501, traz elementos dessa mesma viagem, além de mencionar o encontro em Bezeguiche (baía ao sul de Dacar) com a armada de Cabral, que voltava da Índia. Mais recentemente, em 1937, o pesquisador Ridolfi revelou uma quarta carta manuscrita, conhecida também como “fragmentária”, na qual defende‑se aí de críticas feitas a uma de suas cartas.

O conjunto das missivas, as duas impressas e as quatro manuscritas, não é, para se dizer o menos, harmônico. Em nenhuma carta Vespúcio dá o nome de seu comandante, o que torna difícil comprovar a viagem em outra fonte.

3.3 Uma decifração

Historiadores eminentes interessaram‑se pelo problema da autenticidade das cartas de Vespúcio. A maioria dos especialistas de nossos dias tende, entretanto, a adotar a opinião do scholar italiano Alberto Magnaghi, defendida em Amerigo Vespucci, publicado em 1925. Considera serem hábeis falsificações históricas as cartas publicadas no século XVI, a Mundus Novus e a Lettera, e julga as três cartas manuscritas autênticas (não conhecia então a “fragmentária” e quando o fez posteriormente duvidou de sua autenticidade). Dá como provadas apenas duas viagens de Vespúcio.

Na viagem espanhola de 1499, Vespúcio percorreu toda a costa norte da América do Sul, do cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, até a Venezuela. A segunda viagem de Vespúcio foi feita numa frota portuguesa, enviada em 1501 para conhecer melhor a terra recém‑descoberta por Cabral. Tocando inicialmente o cabo a que chamou de São Roque (Rio Grande do Norte), a frota costeou o litoral leste do Brasil, parando em vários lugares para identificar as potencialidades da terra e ver se encontrava uma passagem para o oeste. Baseado no calendário religioso, nomeou vários pontos litorâneos, como os cabos de Santo Agostinho, o rio São Francisco, a Bahia de Todos os Santos, o Rio de Janeiro e o porto de São Vicente.

3.4 “América, de Américo…”

Uma palavra agora sobre o nome “América”, dado ao continente descoberto. Quem primeiro o empregou foi Martin Waldeseemüller, um professor de Geografia em Saint‑Dié, capital do Reino de Lorena, na obra Cosmographiae Introductio. Anos depois, em 1538, Mercator, o grande nome da geografia naquele século, estende a designação “América” também à América do Norte. Com o prestígio de sua chancela, oficializa no mundo científico o nome do continente.

Colombo teve dois rivais em notoriedade, em seu tempo: Américo Vespúcio, que, graças à imensa difusão de suas cartas, foi considerado por muitos o principal descobridor do Novo Mundo; e Vasco da Gama, que, em 1498, estabeleceu finalmente a tão procurada ligação por mar entre a Europa e o Oriente. Mas quem morreu com toda pompa e glória foi o Gama, em 1524, na mais alta posição a que um português podia aspirar: Vice‑Rei das Índias.

Entretanto, Colombo é quem mais inspirou estudos e biografias. O genovês é justamente valorizado tanto do ponto de vista náutico – foi quem viajou por rota nunca navegada –, como do histórico – foi quem descobriu um continente desconhecido pelos europeus. Outro ponto para Colombo é ser um piloto experimentado, que concebeu e executou um projeto pessoal de navegação; diferentemente do Gama, um fidalgo sem prévio conhecimento do mar, escolhido pelo rei para atingir o antigo objetivo português de chegar às Índias contornando a África.

É realmente difícil saber o exato papel de Vespúcio nas descobertas; mas, sem dúvida, foi relevante: além de ter sido o primeiro que compreendeu, ou pelo menos divulgou, que as terras descobertas eram outro continente, seguramente tinha conhecimentos marítimos suficientemente amplos para exercer suas funções de piloto‑maior, no período áureo dos descobrimentos espanhóis.

Um nome apenas, no período dos grandes descobrimentos, superaria o de Cristóvão Colombo e o de Vasco da Gama, não pela importância histórica do feito, mas pela magnitude da proeza naval: o do português Fernando de Magalhães, que, capitaneando frota espanhola, realizou entre setembro de 1519 e novembro de 1522 a primeira circum‑navegação da Terra (morrendo Magalhães nas Filipinas, a viagem foi completada por Sebastião de Elcano).

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Bibliografia:

GOES FILHO, Synesio Sampaio. Navegantes, bandeirantes, diplomatas: um ensaio sobre a formação das fronteiras do Brasil. Brasília: FUNAG, 2015.

Agradecemos à Patrícia Derolle, do E-Internacionalista, pela dica.

A íntegra da obra pode ser acessada aqui.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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