Navegantes, Bandeirantes, Diplomatas: Monções – A Ocupação do Oeste

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8.1 As monções cuiabanas

Diferente das bandeiras, as monções eram exclusivamente fluviais; seguiam roteiros fixos, passando por pontos conhecidos e tinham um único objetivo: chegar às minas de ouro dos rios Cuiabá e Guaporé.

Há, entretanto, pontos comuns entre as bandeiras e as monções, antes de tudo porque são basicamente movimentos de expansão territorial: as primeiras levaram ao conhecimento da terra em várias regiões do Brasil, as segundas garantiam o povoamento do centro do continente. Foram realmente as monções que consolidaram a posse das terras há muito trilhadas por bandeirantes e que correspondem a boa parte dos atuais estados de Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Rondônia.

A vida das monções começa com o descobrimento de ouro em afluentes do rio Cuiabá, a cerca de 800 quilômetros a oeste do meridiano de Tordesilhas – Pascoal Moreira Cabral, em 1718, encontrou o metal precioso no rio Caxipó‑Mirim. Quatro anos depois, Miguel Sutil descobriu, no local onde nasceria a Vila Real do Senhor do Bom Jesus do Cuiabá, riquíssimos aluviões.

Essa riqueza fácil e abundante explica o excepcional deslocamento populacional para aquelas regiões, tão distantes dos núcleos urbanos do Brasil Colônia. E explica também o sistema de transporte tão original que se desenvolveu para ligar São Paulo a Mato Grosso: as monções. As monções eram caravanas de canoas que saíam do paredão calcário de Porto Feliz, então Nossa Senhora da Mãe dos Homens de Araritaguaba, no rio Tietê, nos meses de abril e maio, quando as águas estavam cheias e as chuvas começavam a escassear. Cinco meses depois, no mínimo, chegavam a Cuiabá. A volta era mais rápida porque as canoas estavam mais vazias; durava dois meses.

Nas canoas de um só tronco iam até vinte pessoas. Na proa, o piloto, o proeiro (comandante), às vezes um prático, e cinco ou seis remeiros, todos de pé. Na popa, sentados, o mesmo número de passageiros que na frente; e no meio, a carga que seria trocada por ouro em Cuiabá.

Vinculados às monções cuiabanas, há dois episódios de grande importância para a ocupação do Oeste. Um deles foi a descoberta de ouro em Goiás em 1725, pelo segundo Anhanguera, Bartolomeu Bueno da Silva, na última bandeira típica de que se tem notícia. A descoberta preencheu o vazio populacional que havia no Planalto Central, ao norte da rota das monções, e justificou a abertura de um caminho terrestre para Goiás, mais tarde prolongado por mais mil quilômetros até Cuiabá.

O outro episódio importante − que interessa mais do ponto de vista da formação das fronteiras − foi a descoberta de ouro no rio Guaporé, a cerca de 600 quilômetros a oeste de Cuiabá. Seu protagonista foi o bandeirante Fernão Pais de Barros. Passados os primeiros tempos de isolamento e dificuldades, os garimpeiros dessas franjas pioneiras passaram a receber da Coroa portuguesa o apoio necessário para se manter na área, justamente considerada castelhana pelos jesuítas espanhóis. Em 1742, estabeleceu‑se a ligação fluvial com Belém, pelos rios Guaporé, Madeira e Amazonas, e, quatro anos depois, criou‑se a capitania de Mato Grosso, com a determinação de se fundar um povoado à margem do Guaporé, por razões que hoje chamaríamos geopolíticas. Anos antes, já se cogitava, em documentos portugueses, o estabelecimento desse povoado para assegurar a presença luso‑brasileira na margem direita do rio, o que só foi feito, entretanto, em 1752. O Tratado de Madri, assinado dois anos antes, já legalizara a posse da área. O núcleo criado objetivava consolidar a ocupação do extremo oeste do território nacional, servindo de centro aos vários ajuntamentos mineradores existentes naqueles confins do Brasil.

8.2 Conflitos de soberania

Nunca houve dúvidas na História do Brasil sobre a participação governamental na ocupação do Norte e do Sul. Belém, fundada em 1616, e a Colônia do Sacramento, em 1680, são os padrões que os portugueses visivelmente colocaram nas bocas dos dois grandes rios continentais que sempre foram considerados as fronteiras naturais da sua colônia americana. Ambas as cidades iniciaram sua vida como fortalezas, erigidas por pensadas decisões do poder público.

A “conquista do oeste” é vista geralmente pelos autores como consequência, primeiro, das explorações bandeirantes, depois, da fixação desses aventureiros, agora transformados em mineradores, no interior profundo da América do Sul. Entretanto, também se podem encontrar marcos da ação do Estado, embora bem menos nítidos do que no Sul e no Norte. Sem apoio governamental, não é garantido que as remotas áreas balizadas pelo rio Guaporé fossem hoje parte do território nacional.

No tempo da ocupação de Mato Grosso, o centro da América do Sul era o grande sertão desconhecido. Vindos do leste os bandeirantes de São Paulo chegaram às águas amazônicas do Guaporé em 1734, pela primeira vez afastando‑se da área normal de suas atividades, a bacia do Prata. Assim, os portugueses atingiam afinal a fronteira mais natural que se poderia ter nesse ponto central do continente. O rio não era, como o Prata e o Amazonas, um marco desejado como limite desde o início da colonização; mas, volumoso, navegável e desaguando no Madeira, parecia fechar o contorno fluvial da ilha Brasil.

Os principais atores do drama histórico apareciam claramente em Mato Grosso, às vésperas do Tratado de Madri: os bandeirantes, já agora transformados em comerciantes e mineradores, e os jesuítas espanhóis; mas havia também, como coadjuvantes, os Governos de Madri e Lisboa, com seus prepostos coloniais. E o que acabou prevalecendo no tratado pouco depois assinado foi a posição basicamente convergente de Portugal e dos paulistas.

8.3 As monções do norte

Em 1752, revertendo a política anterior de proibição de navegar das minas do Guaporé ao Amazonas, baseada meramente em questões fiscais, o Governo português abriu a rota do Madeira. Mais do que isso, passou a estimular as comunicações entre Vila Bela e Belém. Era a oficialização das monções do norte. Articuladas, ambas as monções navegavam boa parte do contorno fluvial da ilha Brasil. As condições das monções do norte eram, entretanto, diferentes. As ubás, como eram aqui chamadas as canoas, carregavam umas sete vezes o que transportavam as canoas paulistas. Os rios, bem mais volumosos também, não apresentavam tantas dificuldades como no Sudeste.

Essa ligação entre o Centro-Oeste e o Norte durante o meio século que se seguiu ao Tratado de Madri foi importante para a sobrevivência da primeira região, tão distante dos centros principais da Colônia e com eles tão dificilmente conectada.

As monções do norte duraram menos que as cuiabanas; começaram depois e morreram juntas na segunda década do século XIX. Nessa época, a ligação terrestre entre Vila Bela, Cuiabá e as cidades da costa leste − sempre mais importantes do que Belém − passaram a ser dominantes, o que provocou a dependência econômica do Cento-Oeste para com o Sudeste.

O período de existência das monções do norte coincide paradoxalmente com o período de decadência das minas de Cuiabá e do Guaporé, quando a economia regional passou a assumir seu caráter pastoril. Sem elas, entretanto, teria sido difícil para Portugal manter o controle dessa vasta área.

Não havia mais, no final do período, o perigo de uma invasão espanhola: as missões de Moxos e Chiquitos degringolaram com a expulsão dos jesuítas, em 1767, e os portugueses já estavam fixados fortemente na região.

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Bibliografia:

GOES FILHO, Synesio Sampaio. Navegantes, bandeirantes, diplomatas: um ensaio sobre a formação das fronteiras do Brasil. Brasília: FUNAG, 2015.

Agradecemos à Patrícia Derolle, do E-Internacionalista, pela dica.

A íntegra da obra pode ser acessada aqui.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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