Um Toque de Clássicos: Introdução

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INTRODUÇÃO

A marca da Europa moderna foi a instabilidade, expressa na forma de crises nos diversos âmbitos da vida material, cultural e moral. Foi no cerne dessas turbulências que nasceu a Sociologia enquanto um modo de interpretação chamado a explicar o “caos” até certo ponto assustador em que a sociedade parecia haver-se tornado.

MUDANCAS RESULTANTES DA INDUSTRIALIZACÃO

Começara a despontar desde a Renascença a consciência de que uma linha distintiva separava os novos tempos do que veio a se chamar Medievo. O avanço do capitalismo como modo de produção dominante na Europa ocidental foi desestruturando tanto os fundamentos da vida material como as crenças e os princípios morais, religiosos, jurídicos e filosóficos em que se sustentava o antigo sistema. A partir da segunda metade do século 18, com a primeira revolução industrial e o nascimento do proletariado, cresceram as pressões por uma maior participação política, e a urbanização intensificou-se, recriando uma paisagem social muito distinta da que antes existia. O esforço para entender as causas e os prováveis desenvolvimentos das novas relações sociais motivou a reflexão que veio a cristalizar-se na Sociologia.

ANTECEDENTES INTELECTUAIS DA SOCIOLOGIA

Pelo menos até o século 18, a maioria dos campos de conhecimento era ainda, como na Antigüidade Clássica, parte integral dos grandes sistemas filosóficos.

Concomitantemente aos processos de ordem socioeconômica, mudanças culturais contribuirão para suplantar a concepção orgânica, dominante na Antiguidade e no período medieval, substituindo-a por correntes de pensamento de base individualista. A Reforma protestante, iniciada no século 16, ao contestar a autoridade da Igreja como instância última na interpretação dos textos sagrados e na absolvição dos pecados, colocou sobre o fiel essa responsabilidade e, instituindo o livre exame, fez da consciência individual o principal nexo com a divindade. Generalizou-se aos poucos a convicção de que o destino dos homens também depende de suas ações.

Além do impacto das mudanças provocadas pela Revolução Industrial, atribui-se à Revolução Francesa um extraordinário impulso para que o modo sociológico de investigar e interpretar a realidade social se tornasse possível. A confiança na razão e na capacidade de o conhecimento levar a humanidade a um patamar mais alto de progresso tornou-se bandeira e símbolo do movimento de crítica cultural que marca o Setecentos, o Século das Luzes – o Iluminismo. É esse movimento de ideias que terá um impacto decisivo na formação da Sociologia e na definição de seu principal foco: o conflito entre o legado da tradição e as forças da modernidade.

Charles Louis de Secondat, Barão de la Brede e de Montesquieu, conhecido como Montesquieu (1689-1755), foi um filósofo político de grande impacto sobre as ciências sociais. A caracterização da esfera social como um campo diferenciado e a procura das leis que regem seu movimento representam o legado mais importante de Montesquieu à formação do pensamento sociológico.

PRIMEIRAS SOCIOLOGIAS: ORDEM, CAOS, CONTRADICÕES, EVOLUCÃO

A Revolução Francesa e seu ideário de liberdade inspiraram também uma reação profundamente conservadora e de certo modo retrógrada no seio do pensamento social e que se refletiu nas produções francesa e inglesa. Entre os principais representantes dos que têm sido chamados “profetas do passado” estão o inglês Edmund Burke (1729-1797) e os franceses Joseph de Maistre (1754-1821) e Louis de Bonald (1754-1840).

Precursores imediatos da Sociologia, os pensadores conservadores consideram que o caos e a ausência de moralidade e solidariedade que as sociedades nascidas das duas grandes revoluções revelam eram fruto do enfraquecimento das antigas instituições protetoras, como a Igreja e as associações de ofícios, que haviam garantido ou expressado a estabilidade e a coesão social anteriores. Essa percepção impacta fortemente a produção sociológica, especialmente no que se refere aos temas da coesão e da solidariedade.

A teoria social avança a passos rápidos na França com a obra de Claude Henri de Rouvroy, conde de Saint-Simon (1760-1825). Um dos fundamentos da análise sociológica de Saint-Simon é a existência de classes sociais dotadas de interesses conflitantes.

Secretário de Saint-Simon por algum tempo, Auguste Comte (1798-1857) foi quem cunhou o termo Sociologia. Tratava-se de conhecer as leis sociais para poder prever racionalmente os fenômenos e agir com eficácia. Comte rejeitava a concepção contratualista de que a sociedade é formada de indivíduos, afirmando que tudo o que é humano além do nível meramente fisiológico deriva da vida social, o que evidencia o predomínio do coletivo.

A teoria evolucionista exerceu profunda atração sobre a Sociologia e a Antropologia, estimulando a utilização de analogias entre a sociedade e os organismos. A sociedade era vista como um sistema vivo, dotado de funções e relações ordenadas, como uma estrutura que unifica seus componentes diferenciados, garantindo a continuidade harmônica do todo em atividade. O inglês Herbert Spencer (1820-1903) foi o sociólogo mais representativo dessa corrente.

Em meados do século 19, Karl Marx (1818-1883), concentrava seus esforços em compreender “os homens de carne e osso”. Sua obra lançou as bases para explicar a vida social a partir do modo como os homens produzem socialmente sua existência por meio do trabalho, e de seu papel enquanto agentes transformadores da sociedade.

A Sociologia começou a se consolidar enquanto disciplina acadêmica e a inspirar rigorosos procedimentos de pesquisa a partir das reflexões de Émile Durkheim (1858-1917) e de Max Weber (1864-1920). Ambos se dedicaram não só a delimitar e a investigar um grande número de temas como a dar-lhes uma clara definição sociológica. Uma parcela considerável da produção desses autores esteve voltada à discussão do método de pesquisa adequado à Sociologia.

Em suma, foi a partir da obra realizada sobretudo por Marx, Durkheim e Weber que a Sociologia moderna se configurou como um campo de conhecimento com métodos e objeto próprios. Assim, a Sociologia revelava a dimensão temporal de fenômenos e dispunha-se, mesmo, a interferir no seu curso aparentemente autônomo. Com o tempo, nenhum tema seria considerado menos nobre ou escaparia à ânsia de entendimento. A razão passa a ser vista como a luz que, promovendo a liberdade do indivíduo, orienta sábios e ignorantes em direção à verdade.

Ao tratar de compreender a especificidade do que poderia ser chamado de “social” e dada a própria natureza de seu objeto, a Sociologia sofre continuamente as influências de seu contexto. Antigos temas – liberdade, igualdade, direitos individuais, alienação – não desaparecem, mas assumem hoje outros significados. A Sociologia era, e continua a ser, um debate entre concepções que procuram dar resposta às questões cruciais de cada época. Por inspirar-se na vida social, não pode, portanto, estar ela própria livre de contradições.

Bibliografia:

QUINTANEIRO, T.; BARBOSA, M. L. O.; OLIVEIRA, M. G. M. Um toque de clássicos: Marx, Durkheim, Weber. 2. ed. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2002.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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