Resumo da Obra

Projeto Nacional: O Dever da Esperança – Introdução

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ANTES DE MAIS NADA…

A REVISÃO GERAL DESTE LIVRO ocorreu antes de qualquer notícia sobre o novo coronavírus. Mas a pandemia não elimina a necessidade de promovermos as reformas e mudanças que proponho.

Quando fomos atingidos pela pandemia, o neoliberalismo já havia deixado o mundo agônico. Com o Ocidente estagnado desde 2008, suas nações já davam sinais de esgotamento do discurso único de corte em programas sociais, privatizações, desregulamentações e vantagens fiscais para as empresas. No Brasil, o neoliberalismo, acentuado desde o fim do Governo Dilma, deixou a economia em coma. Desde o Governo Temer, já são quatro anos de políticas como teto de gastos, reforma trabalhista, reforma da Previdência e privatizações, e a economia do nosso país não reage.

O neoliberalismo nos trouxe até aqui. Mas não nos tirará daqui. E como podemos ver agora, de repente o mundo inteiro recorre ao keynesianismo. A Europa pede um novo Plano Marshall. Os EUA pedem um novo New Deal. No Brasil, temos que pedir um novo plano de recuperação como o de Vargas, em 1930. O que essa crise deixa claro é que o Estado terá que liderar os esforços de empresas e indivíduos para que a sociedade não colapse. Isso é verdade tanto no enfrentamento inicial à pandemia, quanto no enfrentamento à crise que se seguirá a ela.

A única opção moralmente responsável nesse cenário de incerteza é nos basearmos no melhor que a ciência tem a oferecer para tomar nossas decisões. E segundo ela, precisamos radicalizar a quarentena e o isolamento social, com testagem maciça. Paralelamente, somente a oferta monetária para garantir a liquidez, com pacotes fiscais para financiar a renda das pessoas e das empresas, pode salvar nossa economia e, portanto, nosso povo. A rapidez de todas essas medidas é vital.

O consenso em torno dessas políticas fiscais anticíclicas se formou entre todos os economistas, mesmo os conservadores. Mas no Brasil o governo se encontra sob o comando de um personagem inqualificável, que aposta no caos econômico e social por inconfessáveis interesses políticos.

Um livro é uma mensagem para a história, não para o presente. A longo prazo, minha esperança é que essa pandemia ajude a maioria da humanidade a descobrir que já estávamos vivendo numa grande tragédia mais profunda: a da cultura do consumismo irracional misturada com o neoliberalismo criador da super desigualdade.

Nas últimas décadas, transitamos de um padrão de busca da felicidade no ambiente subjetivo, espiritual, para a busca da felicidade cada vez mais concentrada no ambiente do consumo. Para mim, isso explica grande parte do drama contemporâneo. As novas gerações são empurradas para entrar numa espiral de consumo para a qual não têm recursos, e vão se tornando infelizes e desenvolvendo a crença de que são fracassadas. Na minha opinião, a raiz mais profunda da violência em nossa sociedade é o contraste entre a miséria e a opulência, vinculado às excitações das demandas de consumo. Mais ainda, às terríveis frustrações de se buscar a felicidade na posse de coisas. Sempre haverá novos padrões de consumo e produtos a acessar para tornar infeliz aquele que os deseja e não os possui.

Mas para sairmos do buraco inédito onde estamos, nosso país terá que construir um novo diálogo e um novo consenso, que supere as feridas do golpe de 2016 e a radicalização e polarização ideológica que se acentua desde 2013. Ofereço este livro como uma contribuição para esse diálogo e para a formação desse novo consenso. Que Deus nos abençoe e ilumine neste momento do qual, como disse o Papa Francisco, nos salvaremos unidos ou pereceremos divididos.

INTRODUÇÃO

ESTE LIVRO É UM APELO ao debate racional a respeito da questão nacional. Ele resume os debates e palestras que mantive percorrendo o Brasil nestes últimos dez anos dramáticos de sua história. E como chamado que é, quer despertar as contrapropostas, respostas e contestações de todos, aliados ou adversários de ideias que respeitam o debate democrático. Minhas ideias aqui poderão mudar a depender apenas de que outra ideia melhor se apresente no debate.

Nosso país adoeceu gravemente. As marcas do enfraquecimento de nossa democracia se fazem sentir no espaço público, em nossos ambientes de trabalho e mesmo em nossa vida familiar. A polarização política que vem se acentuando desde os estranhos eventos de junho de 2013 impôs um enorme obstáculo ao debate político e econômico, que tem ficado reduzido aos símbolos, adjetivos e narrativas. E a narrativa predominante desaguou numa tosca reedição de anticomunismo contra uma imaginária ameaça bolchevique quase trinta anos depois da queda do Muro de Berlim e do fim da Guerra Fria.

Hoje, por ocasião dessa polarização, encontra-se, de um lado, um governo desastroso que se afirma no ataque a um partido que está há mais de três anos fora do poder. Do outro lado, encontra-se um petismo adoecido e sem projeto de país, que, machucado com o evento da prisão de seu líder, sem autocrítica alguma por suas responsabilidades na situação atual e sem compromisso algum com a gestão presente ou futura do país, radicaliza seu discurso de volta à demagogia fácil. O radicalismo retórico, no entanto, esconde, dos dois lados, a absoluta falta de coragem e capacidade para fazer o que o país precisa para se desenvolver de forma soberana. O Brasil não cabe nessas classificações grosseiras. O Brasil é muito maior do que isso.

A saída para o Brasil passa por aquilo de que infelizmente muitos de nós estão fartos e desiludidos: a democracia e a sua linguagem que é a política. Fora da democracia, as cortinas de fumaça são muito mais impenetráveis e ameaçadoras, pois silenciosas. E democracia é barulho sempre, mas que seja o barulho do diálogo com aquelas e aqueles de quem discordamos.

Em síntese, o que quero é ajudar a criar uma corrente de opinião que prepare as bases sociais para refundarmos entre nós um Projeto Nacional de Desenvolvimento. Enquanto Deus me der a chance de lutar, meu erro nunca será o da acomodação.

Vamos pensar o Brasil. Aqui seguirei um método que tenho tentado conferir ao debate nos últimos anos. Definir o problema, oferecer um diagnóstico da situação atual e, por fim, uma proposta de solução. Você pode discordar da definição, do diagnóstico, ou ter outras propostas. Mas é importante saber onde discordamos. Porque precisamos voltar a debater problemas e propostas, e não supostas motivações emocionais e pessoais, a cor da roupa de meninos e meninas ou vídeos pornográficos.

Aproveito de saída para me desculpar com o leitor antecipadamente pelas várias referências que farei a minha experiência acumulada nesses quarenta anos de serviço ao país. E já as começarei aqui repetindo o que tanto enfatizei na campanha presidencial de 2018: que durante essa vida pública nunca respondi a nenhum processo por corrupção, nem sequer para ser absolvido. Farei isso porque acredito que a política brasileira hoje está carente de exemplos. Se os exemplos que eu tenho para dar são valiosos, cabe à leitora ou ao leitor julgar.

Nosso país encontra-se perto de um ponto de não retorno. Precisamos acordar desse sono da razão que só produz monstros e encontrar o caminho para o Brasil retomar seu sonho sempre interrompido e adiado de se tornar um país desenvolvido e justo.

Bibliografia:

GOMES, Ciro. Projeto nacional: o dever da esperança. São Paulo: LeYa, 2020.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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