Era dos Extremos: Feiticeiros e Aprendizes – As Ciências Naturais

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I

Nenhum período da história foi mais penetrado pelas ciências naturais nem mais dependente delas do que o século XX. Contudo, nenhum período, desde a retratação de Galileu, se sentiu menos à vontade com elas. Este é o paradoxo que tem de enfrentar o historiador do século.

Em 1910, todos os físicos e químicos alemães e britânicos juntos chegavam talvez a 8 mil pessoas. Em fins da década de 1980, o número de cientistas e engenheiros de fato empenhados em pesquisa e desenvolvimento experimental no mundo era estimado em cerca de 5 milhões, dos quais quase 1 milhão se achava nos EUA e um número ligeiramente maior nos Estados da Europa.

Os cientistas de fato eram cada vez mais selecionados por meio de uma “tese doutoral”, que se tornou o bilhete de entrada para a profissão. Apesar de 90% dos trabalhos científicos serem publicados em quatro idiomas (inglês, russo, francês e alemão), a ciência eurocêntrica se encerrou no século XX. A Era das Catástrofes, e sobretudo o triunfo temporário do fascismo, transferiu seu centro de gravidade para os EUA, onde permaneceu. Entre 1900 e 1933, só sete Prêmios Nobel de ciência foram dados aos EUA; mas, entre 1933 e 1970, foram 77.

Contudo, um fato impressionante é que (pelo menos) um terço dos laureados asiáticos não aparece representando seu país de origem, mas como cientistas americanos. Os cérebros do mundo desde 1945 foram drenados dos países pobres para os ricos por motivos sobretudo econômicos. Isso é natural, pois nas décadas de 1970 e 1980 os países capitalistas desenvolvidos gastaram quase três quartos de todos os orçamentos do mundo em pesquisa e desenvolvimento, enquanto os pobres (“em desenvolvimento”) não gastaram mais de 2% a 3% (UN World Social Situation 1989, p. 103).

A tecnologia com base na ciência já se achava no âmago do mundo burguês do século XIX. Apesar disso, a grande ciência ainda não era uma coisa sem a qual a vida diária em toda parte do globo seria inconcebível. É o que ocorre quando o milênio chega ao seu final.

Assim a ciência demonstra diariamente seus milagres ao mundo de fins do século XX. É tão indispensável e onipresente — pois mesmo os mais remotos confins da humanidade conhecem o rádio transistorizado e a calculadora eletrônica — quanto Alá para o muçulmano crente. O século XX foi aquele em que a ciência transformou tanto o mundo quanto o nosso conhecimento dele. E no entanto, o século XX não se sentia à vontade com a ciência.

Contudo, na primeira metade do século, os grandes riscos da ciência vinham não dos que se sentiam humilhados pelos ilimitados e incontroláveis poderes dela, mas dos que achavam que podiam controlá-los. De maneiras diferentes, tanto o stalinismo quanto o nacional-socialismo alemão rejeitavam a ciência mesmo quando a usavam para fins tecnológicos. O que contestavam era seu desafio a visões de mundo e valores expressos em verdades a priori.

Assim, nenhum dos dois regimes se sentiu à vontade com a física pós-Einstein. Os nazistas rejeitaram-na como “judia”, e os ideólogos soviéticos, como insuficientemente “materialista” no sentido leninista da palavra. Regimes do tipo nacional-socialista e soviético partilhavam a crença em que seus cidadãos deviam aceitar uma “doutrina verdadeira”, mas formulada e imposta pelas autoridades político-ideológicas seculares. Daí a ambiguidade e o mal-estar em relação à ciência.

II

Entre 1924 e 1927, as dualidades que tanto perturbavam os físicos no primeiro quartel do século foram eliminadas por um brilhante golpe da física matemática, a construção da “mecânica quântica”, imaginada quase simultaneamente em vários países. A verdadeira “realidade” dentro do átomo não era onda nem partícula, mas indivisíveis “estados quânticos” que se manifestavam potencialmente como qualquer uma das duas, ou como ambas. Era inútil encará-la como um movimento contínuo ou descontínuo, porque não podemos seguir passo a passo o caminho do elétron.

O triunfo da física do século fora mostrar que eletricidade, magnetismo e fenômenos ópticos tinham as mesmas raízes. Contudo, a nova revolução na ciência produzira não simplificação, mas complicação. A maravilhosa teoria da relatividade de Einstein, que descrevia a gravidade como uma manifestação da curvatura do espaço-tempo, na verdade introduziu uma perturbadora dualidade na natureza: “de um lado estava o palco — o espaço-tempo curvo, a gravidade; de outro, os atores — os elétrons, os prótons, os campos eletromagnéticos — e não havia elo entre eles” (Weinberg, 1979, p. 43).

Além disso, havia o fato extraordinário observado pelo astrônomo americano E. Hubble em 1929, de que todo o universo parecia estar-se expandindo num ritmo estonteante. O universo em expansão, assim, aumentou a confusão tanto de cientistas como de leigos.

A Era das Catástrofes foi também uma das comparativamente poucas eras de cientistas politizados. Os cientistas eram mais diretamente politizados por sua crença em que os leigos, incluindo os políticos, não tinham ideia do extraordinário potencial que a ciência moderna, adequadamente usada, punha à disposição da sociedade humana.

Ao mesmo tempo, a guerra finalmente convenceu os governos de que o empenho de recursos até então inimagináveis na pesquisa científica era tão praticável quanto, no futuro, essencial.

III

A temperatura política da ciência caiu após a Segunda Guerra Mundial. O radicalismo nos laboratórios recuou rapidamente em 1947-9, quando opiniões tidas como sem base e bizarras em outras partes se tornaram obrigatórias para os cientistas na URSS. A URSS, ao contrário da Alemanha nazista, jamais pareceu em posição de conquistar o Ocidente. Para a maioria dos cientistas ocidentais, a URSS, seus satélites e a China comunista eram mais Estados ruins, com cientistas dignos de pena, do que impérios do mal a exigir uma cruzada.

Um tanto inesperadamente, foi na região soviética do globo que a ciência se tornou mais política à medida que avançava a segunda metade do século. Não por acaso o maior porta-voz nacional (e internacional) da dissidência na URSS seria um cientista, Andrei Sakharov (1921-89), o físico que fora o principal responsável pela construção da bomba de hidrogênio soviética. Os cientistas eram a classe mais diretamente consciente das fraquezas e limitações do sistema.

V

A política e a ideologia começaram mais uma vez a cercar as ciências naturais na década de 1970. Contudo, começaram a penetrar até mesmo em ramos das próprias ciências, em forma de debates sobre a necessidade de limitações práticas e morais à investigação científica. Foi a perspectiva de “engenharia genética” que na verdade suscitou a questão imediata de se se deviam considerar limitações à pesquisa científica. A questão não era se alguém devia dizer aos pesquisadores o que fazer, mas quem impunha esses limites e orientações, e por quais critérios. Para a maioria dos cientistas, cujas instituições eram direta ou indiretamente pagas com verbas públicas, esses controladores de pesquisa eram os governos.

A verdade é que a “ciência” (com o que muita gente quer dizer as ciências naturais “pesadas”) estava demasiado grande, demasiado poderosa, demasiado indispensável à sociedade em geral e a seus pagadores em particular para ser deixada entregue a seus próprios cuidados.

Essas eram as bases nas quais as triunfantes estruturas da pesquisa e da teoria científicas se erguiam, e pelas quais o século XX será lembrado como uma era de progresso humano, e não, basicamente, de tragédia humana.

Bibliografia:

HOBSBAWM, Eric J. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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