Era dos Extremos: Rumo ao Milênio

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I

O Breve Século XX acabou em problemas para os quais ninguém tinha soluções. Pela primeira vez em dois séculos, faltava inteiramente ao mundo da década 1990 qualquer sistema ou estrutura internacional. Onde estavam os vencedores da Primeira Guerra Mundial que supervisionavam o novo desenho do mapa da Europa e do mundo? Se a natureza dos atores no cenário internacional não era clara, o mesmo se dava com a natureza dos perigos que o mundo enfrentava.

A década de 1980 já demonstrara, com a guerra britânico-argentina de 1983 e a do Irã-Iraque de 1980-8, que guerras que nada tinham a ver com o confronto global das superpotências eram uma possibilidade permanente. Como muitas vezes não era claro quem combatia quem e por que nas cada vez mais frequentes situações de colapso e desintegração nacionais, essas atividades não se encaixavam em nenhuma das classificações clássicas de “guerra”, internacional ou civil. O perigo de guerra global não havia desaparecido. Apenas mudara.

Uma inovação importante da segunda metade do século enfraquecera os Estados: a democratização ou privatização dos meios de destruição. Agora era possível a grupos bastante pequenos de políticos ou outros dissidentes corroer e destruir em qualquer parte. Na última metade do Breve Século XX, o Primeiro Mundo podia vencer batalhas contra o Terceiro Mundo, mas a vitória não assegurava o controle de tais territórios. Desaparecera a maior vantagem do imperialismo, ou seja, a disposição das populações coloniais de deixarem-se administrar por um punhado de ocupantes.

Em suma, o século acabou numa desordem global cuja natureza não estava clara, e sem um mecanismo óbvio para acabar com ela ou mantê-la sob controle.

II

O motivo dessa impotência estava não apenas na verdadeira profundidade e complexidade da crise mundial, mas também no aparente fracasso de todos os programas, velhos e novos, para controlar e melhorar os problemas da raça humana.

O colapso da URSS, claro, chamou a atenção basicamente para o fracasso do comunismo soviético. Por outro lado, a contra-utopia oposta à soviética também se achava demonstravelmente em bancarrota: a fé teológica numa economia em que os recursos eram alocados inteiramente pelo mercado sem qualquer restrição. Jamais existira nenhuma sociedade de puro laissez-faire assim. As teorias em que se baseava a teologia neoliberal pouca relação tinham com a realidade. As Décadas de Crise revelaram que as instituições humanas coletivas haviam perdido o controle das consequências coletivas da ação humana.

IV

Considerados isoladamente, os problemas da economia mundial eram, com uma exceção, menos sérios. A grande exceção era o aparentemente irreversível alargamento do abismo entre os países ricos e pobres do mundo.

Ao acabar-se o Breve Século XX, os governos e a ortodoxia ocidentais concordavam em que o custo da seguridade social e da previdência social públicas estava demasiado alto e tinha de ser reduzido, e a redução em massa de emprego nos até então mais estáveis setores de ocupações terciárias — emprego público, bancos e finanças, o tecnologicamente redundante trabalho de escritório de massa — tornou-se comum.

Qualquer que seja a natureza desses problemas, uma economia de livre mercado irrestrita e incontrolada não poderia oferecer-lhes solução, pois a escolha racional de empresas baseadas no lucro era a. reduzir o número de seus empregados o máximo possível, e b. reduzir os impostos de seguridade social (ou qualquer outro) até onde possível. À medida que se aproximava o milênio, tornava-se cada vez mais evidente que a tarefa central da época não era regozijar-se sobre o cadáver do comunismo soviético, mas pensar, uma vez mais, nos defeitos inatos do capitalismo.

V

Nenhum observador sério no início da década de 1990 podia ser tão confiante em relação à democracia liberal quanto ao capitalismo. Na verdade, a coisa mais óbvia na situação política dos Estados do mundo era sua instabilidade.

Apesar disso, algumas características do panorama político global se destacavam. A primeira era o enfraquecimento do Estado-nação. O Estado-nação perdia rapidamente poder e função para várias entidades supranacionais na medida em que a desintegração de grandes Estados e impérios produzia uma multiplicidade de Estados menores, demasiado fracos para defender-se numa era de anarquia internacional.

Esses fatos não tornavam o Estado nem redundante nem ineficaz. Na verdade, em alguns aspectos, sua capacidade de acompanhar e controlar os assuntos de seus cidadãos foi reforçada pela tecnologia. E no entanto, sua posição mudara. Do século XVIII até a segunda metade do XX, o Estado-nação estendera quase continuamente seu alcance, poderes e funções. Este foi um aspecto essencial da “modernização”. No fim do século, o Estado-nação se achava na defensiva contra uma economia mundial que não podia controlar; contra sua incapacidade real de manter o que, pelos seus próprios critérios, era sua maior função: a manutenção da lei e da ordem públicas.

E, no entanto, o Estado, ou alguma outra forma de autoridade pública representando o interesse público, era mais indispensável que nunca se se queria enfrentar as iniquidades sociais e ambientais do mercado.

VI

À medida que aumentava o fosso entre ricos e pobres, parecia que aumentaria o espaço para o exercício do poder global. O problema era que, desde a década de 1970, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional vinham seguindo uma política sistematicamente favorecedora da economia de livre mercado. Se as tomadas de decisões globais queriam realizar seu potencial, tais políticas teriam de ser mudadas.

O dilema democrático era mais agudo agora, tanto porque a opinião pública era agora inevitável, quanto porque as autoridades públicas tinham de tomar muito mais decisões para as quais a opinião pública não constituía nenhum tipo de guia. Cada vez mais os governos foram passando a contornar tanto o eleitorado quanto suas assembleias representativas, se possível. A política tornou-se cada vez mais um exercício de evasão, pois os políticos temiam dizer aos eleitores o que eles não queriam ouvir.

Para o melhor ou pior, no século XX as pessoas comuns entraram na história como atores com seu direito coletivo próprio. Tivesse ou não “o povo” o direito de eleger seu governo, suas intervenções nos assuntos públicos, ativas ou passivas, eram decisivas. Contudo, nada disso respondia à questão de quais deviam ser as relações entre os que decidiam e os povos. Simplesmente acentuava a dificuldade da resposta.

VII

Profetizar não ajuda nada. Portanto, seria tolice encerrar este livro com previsões de como será uma paisagem já deixada irreconhecível pelas convulsões tectônicas do Breve Século XX. Há menos razão para sentir-se esperançoso em relação ao futuro do que em meados da década de 1980.

As forças geradas pela economia tecnocientífica são agora suficientemente grandes para destruir o meio ambiente, ou seja, as fundações materiais da vida humana. Nosso mundo corre o risco de explosão e implosão. Tem de mudar. Se tentarmos construir o terceiro milênio nessa base, vamos fracassar. E o preço do fracasso, ou seja, a alternativa para uma mudança da sociedade, é a escuridão.

Bibliografia:

HOBSBAWM, Eric J. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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