História Geral da África, I: As Fontes Escritas Anteriores Ao Século XV

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Problemas gerais

Não existe até o momento, nenhum estudo do conjunto das fontes escritas da história da África. Os raros estudos realizados têm sido associados a campos específicos da pesquisa científica. Assim, o Egito faraônico é domínio do egiptólogo, o Egito ptolomaico e romano, do classicista, o Egito muçulmano do islamista: três períodos, três especialidades, das quais apenas uma se origina do que é especificamente egípcio. O domínio da África negra, também variado, abrange diferentes línguas e especialidades. O historiador da África negra, ao examinar um documento escrito em árabe, não o faz da mesma maneira que o historiador do Magreb, ou que o historiador do Islã em geral.

Assim, apreender a história da África como um todo e considerar, nessa perspectiva, suas fontes escritas, continua a ser tarefa delicada e particularmente difícil.

O problema da periodização

As fontes antigas e medievais caracterizam-se por sua escrita literária; são testemunhos conscientes em sua maioria, sejam anais, crônicas, viagens ou geografias. Já a partir do século XV, tornam-se abundantes as fontes arquivísticas, que são testemunhos inconscientes. Por outro lado, se até então a predominância era de textos “clássicos” e árabes, a partir do século XV as fontes árabes esgotam-se, e passamos a encontrar evidências de diferentes origens: o documento europeu (italiano, português, etc.) e, para a África negra, o documento autóctone.

Isto posto, dividiremos a época em estudo em três períodos principais:

a Antiguidade até o Islã: Antigo Império até +622;

a primeira Idade Islâmica: de +622 até a metade do século XI (1050);

a segunda Idade Islâmica: do século XI ao século XV.

Aqui, a noção de Antiguidade certamente não se compara à que vigora na história do Ocidente; o período não se encerra com as invasões bárbaras, mas com o súbito aparecimento do Islã. Precisamente pela profundidade e alcance de seu impacto, o Islã representa uma ruptura com o passado que poderíamos chamar antigo.

A natureza do material documentário altera-se. Quanto mais avançamos no tempo, maior o número de fontes inconscientes (documentos de arquivos, pareceres jurídicos) encontradas na África mediterrânica, e mais precisas as informações relativas à África negra.

Áreas etnoculturais e tipos de fontes

A classificação das fontes por períodos históricos não basta por si só. Convém levarmos em conta a articulação da África em áreas etnoculturais, cuja caracterização resulta de uma conjugação de fatores, e a própria tipologia das fontes disponíveis, que se coloca além dos períodos históricos e das diferenciações espaciais.

Áreas etnoculturais

Podemos operar a seguinte estruturação regional:

a) Egito, Cirenaica, Sudão nilótico;

b) Magreb, incluindo a franja norte do Saara, as zonas do extremo ocidente, a Tripolitânia e o Fezzan;

c) Sudão ocidental, no sentido amplo, isto é, até o lago Chade em direção a leste e incluindo o sul do Saara;

d) Etiópia, Eritreia, chifre oriental e costa oriental;

e) O resto da África, ou seja, o golfo da Guiné, a África central e o sul da África.

Essa classificação estrutura o continente segundo afinidades geo-históricas orientadas dentro de uma perspectiva africana, mas leva também em consideração o caráter particular das fontes escritas de que dispomos.

Tipologia das fontes escritas

a) Se classificarmos os documentos numa ordem hierárquica que leve em conta ao mesmo tempo a quantidade e a qualidade da informação, obteremos a seguinte lista aproximativa: árabe, grego, latim, egípcio antigo (hierático e demótico), copta, hebraico, aramaico, etíope, italiano, swahili, persa, chinês, etc.

Inventário por períodos

A Antiguidade pré‑islâmica (das origens a 622)

Esse período é caracterizado pela predominância das fontes arqueológicas e, em geral, não-literárias. Do ponto de vista da divisão regional, devemos notar que estão totalmente ausentes na África ocidental e central.

A primeira idade islâmica (622‑1050 aproximadamente)

Pela primeira vez temos informações mais precisas sobre o mundo negro, tanto do leste como do oeste, embora parcelar, desconexa, às vezes mítica, mas ainda assim preciosa.

Se excluirmos as fontes arquivísticas, cuja tradição continua no Egito e que concernem especificamente a esse país, a maior parte de nossas fontes, narrativas no sentido amplo ou indireto, é comum a toda a África.

A segunda idade islâmica (1050‑1450)

O que caracteriza esse longo período é a riqueza, a qualidade e a variedade de nossa informação. As fontes arquivísticas, sempre secundárias em relação aos documentos “literários” escritos, são, contudo, importantes: documentos da Geniza, cartas almorávidas e almoadas, registros de Waqf, fatwas, documentos italianos, peças oficiais intercaladas nas grandes compilações. Os cronistas produzem obras de primeira ordem, que valem tanto pela observação dos fatos a eles contemporâneos como pela reprodução de antigas fontes perdidas. Finalmente, no que se refere à África negra, nosso conhecimento atinge seu ponto máximo.

Portanto, no que diz respeito à segunda Idade Islâmica, nossa documentação é abundante, variada e em geral de boa qualidade, em contraste com o período precedente. Espera-se, no entanto, que documentos europeus e autóctones nos permitam aprofundar esse conhecimento, e ampliá -lo de forma a abranger regiões que até o momento se mantêm na obscuridade.

Conclusão

Não seria exato pensar que o estado das fontes escritas do continente africano antes do século XV seja de extrema pobreza, mas a verdade é que, no conjunto, a África é menos provida que a Europa e a Ásia. Uma exploração rigorosa e atenta desses textos ainda pode contribuir muito, embora não se possam esperar grandes descobertas. É preciso que nos dediquemos com urgência a todo um trabalho de crítica textual, de reedição, de confrontação e de tradução, já iniciado por alguns pioneiros e que deve ser continuado.

Por outro lado, ainda que nossas fontes tenham sido redigidas no quadro de culturas “universais”, cujo ponto focal se situa fora da África – culturas “clássicas”, cultura islâmica – têm a vantagem de ser em sua maioria comuns a todos podendo ser lidas numa perspectiva africana. Essas fontes valorizam uma certa solidariedade de comunicação africana, à qual, até agora, islamistas e africanistas nem sempre têm se mostrado sensíveis.

Leia a íntegra do texto aqui.

Bibliografia:

DJAIT, H. As fontes escritas anteriores ao século XV. In: História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África. 2.ed – Brasília: UNESCO, 2010.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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