História Geral da África, I: Lugar da História na Sociedade Africana

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Este é o resumo de História Geral da África – capítulo 2 do livro 1 da obra organizada pela UNESCO. Bons estudos!

O homem africano, como em toda parte, faz sua história e tem uma concepção dessa história. Essa história engendrada na prática foi, enquanto projeto humano, concebida a priori. Ela é também refletida e interiorizada a posteriori pelos indivíduos e pelas coletividades. Torna-se, portanto, um padrão de pensamento e de vida: um “modelo”.

Tempo mítico e tempo social

Num primeiro contato com a África, tem-se a impressão de que os africanos estavam como que afogados no tempo mítico, enquanto os outros povos percorriam a avenida da história, imenso eixo balizado pelas etapas do progresso. De fato, o mito, representação fantástica do passado, em geral domina o pensamento dos africanos na sua concepção do desenrolar da vida dos povos. Sob forma de “costumes” vindos de tempos imemoriais, o mito governava a História, encarregando-se, por outro lado, de justificá-la. Num tal contexto, aparecem duas características surpreendentes do pensamento histórico: sua intemporalidade e sua dimensão essencialmente social.

Nesta situação o tempo não é a duração capaz de dar ritmo a um destino individual; é o ritmo respiratório da coletividade. Nos países tecnicamente desenvolvidos, os próprios cristãos estabelecem uma nítida demarcação entre “o fim dos tempos” e a eternidade. Ora, em geral o tempo africano tradicional engloba e integra a eternidade em todos os sentidos. As gerações passadas permanecem sempre contemporâneas e tão influentes quanto o eram durante a época em que viviam. Assim sendo, a causalidade atua em todas as direções: o passado sobre o presente e o presente sobre o futuro. Nesse tempo “suspenso”, a ação do presente é possível mesmo sobre o que é considerado passado mas que permanece, de fato, contemporâneo. O sangue dos sacrifícios de hoje reconforta os ancestrais de ontem.

Os africanos têm consciência de ser os agentes de sua história?

Certamente, durante alguns séculos o homem africano teve razões de sobra para não desenvolver uma consciência responsável. Excessivas imposições exteriores e alienantes domesticaram-no a tal ponto que mesmo quando ele vivia longe da costa onde se dava o aprisionamento de escravos e da área de influência do comandante branco, ele guardava num canto qualquer de sua alma a marca aniquiladora da escravidão.

Do mesmo modo, no período pré-colonial, numerosas sociedades africanas elementares, quase fechadas, dão a impressão de que seus membros só tinham consciência de estar fazendo história numa escala e numa medida bastante limitadas, em geral na dimensão da grande família e no quadro de uma hierarquia consuetudinária gerontocrática, rigorosa e pesada. Entretanto, mesmo nesse nível, o sentimento da autorregulação da comunidade, da autonomia, era vivo e poderoso O apego à liberdade atestava aqui o gosto pela iniciativa e o repúdio pela alienação.

Em compensação, nas sociedades fortemente estruturadas a concepção africana de chefe dá a este último um espaço exorbitante na história dos povos dos quais ele literalmente encarna o projeto coletivo. Isto não significa, em absoluto, um condicionamento “ideológico” que destrói o espírito crítico, ainda que, nas sociedades em que o único canal de informações é a via oral, as autoridades que controlam uma sólida rede de griots praticamente monopolizem a difusão da “verdade” oficial.

Por outro lado, a ideia de um líder que atua como motor da história quase nunca se reduz a um esquema simplista, creditando a um só homem todo o desenvolvimento humano. Geralmente trata-se de um grupo dinâmico, celebrado como tal. Os companheiros dos chefes, mesmo os de condição inferior (griots, porta-vozes, servos), frequentemente entram para a história como heróis.

A mesma observação vale para as mulheres que ocupam na consciência histórica africana uma posição sem dúvida mais importante que em qualquer outro lugar. Nas sociedades de regime matrilinear isto é facilmente compreensível. A célebre Amina, que, na região haussa, no século XV, conquistou para Zaria tantas terras e aldeias que ainda levam o seu nome, é apenas um exemplo, entre milhares, da ideia de autoridade histórica que as mulheres impuseram às sociedades africanas. É claro que a mulher africana é utilizada também como objeto de prazer e de decoração, como nos sugerem as que são mostradas envoltas em tecidos de exportação ao redor do rei do Daomé ao presidir uma festa tradicional. Mas do mesmo espetáculo participavam as amazonas, ponta de lança das tropas reais contra Oyo e os invasores colonialistas na batalha de Cana (1892).

Em suma, tudo se passa como se na África a permanência das estruturas elementares das comunidades de base através do movimento histórico tivesse conferido a todo processo um caráter popular bastante notável. Apesar da mediocridade técnica dos meios de comunicação, a estreita amplitude do espaço histórico media-se pela apreensão mental de cada um. Daí a inspiração “democrática” incontestável que anima a concepção africana da história na maioria dos casos! Este sentimento de fazer a história mesmo na escala microcósmica da aldeia, assim como a sensação de ser somente uma molécula na corrente histórica criada pelo rei visto como demiurgo, são muito importantes para o historiador. Porque constituem em si mesmos fatos históricos e porque contribuem por sua vez para criar a história.

O tempo africano é um tempo histórico

O tempo africano pode ser considerado um tempo histórico? O próprio caráter social da concepção africana da história lhe dá uma dimensão histórica incontestável, porque a história é a vida crescente do grupo. Ora, deste ponto de vista pode-se dizer que para o africano o tempo é dinâmico. Nem na concepção tradicional, nem na visão islâmica que influenciará a África, o homem é prisioneiro de um processo estático ou de um retorno cíclico. Na concepção global do mundo, entre os africanos, o tempo é o lugar onde o homem pode, sem cessar, lutar pelo desenvolvimento de sua energia vital. Defender-se contra qualquer diminuição de seu ser, desenvolver a saúde, a forma física, a extensão de seus campos, a grandeza de seus rebanhos, o número de filhos, de mulheres, de aldeias, este é o ideal dos indivíduos e das coletividades. E essa concepção é incontestavelmente dinâmica.

Existe assim no africano uma vontade constante de invocar o passado, que constitui para ele uma justificação. Mas esta invocação não significa o imobilismo e não contradiz a lei geral da acumulação das forças e do progresso. Daí a frase: “Que o meu esteja melhor na minha boca que na dos ancestrais”.

A consciência do tempo passado era muito viva entre os africanos. No entanto, esse tempo que tem um grande peso sobre o presente não anula o dinamismo deste, como testemunham numerosos provérbios. A concepção do tempo tal como a detectamos nas sociedades africanas não é, com certeza, inerente ou consubstancial a uma espécie de “natureza” africana. É a marca de um estágio no desenvolvimento econômico e social. Prova disso são as diferenças flagrantes que notamos ainda hoje entre o tempo-dinheiro dos habitantes das cidades e o tempo tal como é apreendido pelos habitantes do campo. O essencial é que a ideia de desenvolvimento a partir das origens esteja presente. Mesmo sob a forma de contos e de lendas, ou de resquícios de mitos, trata-se de um esforço para racionalizar o desenvolvimento social. Às vezes, têm-se verificado esforços ainda mais positivos no sentido de iniciar o cálculo do tempo histórico. Este pode estar relacionado com o espaço, mas está frequentemente relacionado a fatores exteriores ao indivíduo, como por exemplo, os fenômenos cósmicos, climáticos e sociais, sobretudo quando eles são recorrentes. Na savana sudanesa, entre os adeptos das religiões africanas tradicionais, geralmente conta-se a idade pelo número das estações chuvosas.

Mas a grande reviravolta na concepção africana do tempo se opera sobretudo pela entrada desse continente no universo do lucro e da acumulação monetária. Só agora o sentido do tempo individual e coletivo se transforma pela assimilação dos esquemas mentais em vigor nos países que influenciam os africanos econômica e culturalmente. Descobrem então que, em geral, é o dinheiro que faz a história. O homem africano, tão próximo de sua história que tinha a impressão de forjá-la ele próprio em suas microssociedades, enfrenta agora, ao mesmo tempo, o risco de uma gigantesca alienação e a oportunidade de ser coautor do progresso global.

Leia a íntegra do texto aqui.

Bibliografia:

HAMA, Boubou e KI-ZERBO, Joseph.  Lugar da história na sociedade africana. In: História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África. 2.ed – Brasília: UNESCO, 2010.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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