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História Geral da África, I: Tendências Recentes das Pesquisas Históricas Africanas e Contribuição à História em Geral

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Este é o resumo de História Geral da África – capítulo 3 da obra organizada pela UNESCO. Boa leitura!

O objetivo deste volume e dos ulteriores é tornar conhecido o passado da África tal como é visto pelos africanos. A história da África revelou-se nos últimos decênios um elemento essencial do desenvolvimento africano. É por esta razão que, na África e em outros lugares, a primeira preocupação dos historiadores foi ultrapassar os vestígios da história colonial e reatar os laços com a experiência histórica dos povos africanos. No século XIX e no início do século XX, a marca do regime colonial sobre os conhecimentos históricos falseia as perspectivas em favor de uma concepção eurocêntrica da história do mundo, elaborada na época da hegemonia europeia.

A despeito dos prazos que separam a descoberta de sua difusão, os estudos de história atravessam, em seu conjunto, uma dupla revolução. Iniciada logo após a Segunda Guerra Mundial, tal revolução ainda não acabou. Trata-se, por um lado, da transformação da história, partindo da crônica para chegar a uma ciência social que trate da evolução das sociedades humanas; por outro, da substituição dos preconceitos nacionais por uma visão mais ampla.

Nesse contexto, o simples advento da história africana já constitui em si uma preciosa contribuição. Mas isso poderia simplesmente acabar criando mais uma história particularista, válida em si e capaz de colaborar com o desenvolvimento da África, mas não de trazer à história do mundo uma contribuição mais eloquente.

Na primeira metade do século XX, os bons historiadores mal começavam a se desfazer da antiga tendência em considerar a história como propriedade quase privada. As autoridades responsáveis pela educação tendem a considerar a história como uma história nacional, não como uma visão do processo histórico mundial. Mito confesso, esperava-se que inculcasse o patriotismo e não que inspirasse perspectivas justas sobre o desenvolvimento da humanidade.

No âmbito desse esforço geral, o papel dos historiadores da África na própria África e fora dela assumia particular importância, provavelmente pelo fato de a história africana ter sido mais negligenciada que a das regiões não europeias equivalentes e porque os mitos racistas a desfiguraram ainda mais que a estas últimas. Os racistas não cessavam de proclamar que os africanos não poderiam ser os autores de uma “civilização” digna desse nome e por isso não havia entre eles nada de admirável que não houvesse sido copiado de outros povos. É assim que os africanos se tornaram objeto – e jamais sujeito – da história.

Sem modificar em nada os papéis, o primeiro esforço para corrigir essa interpretação limita-se a modificar os julgamentos de valor. De heróis a serviço da civilização em marcha, os desbravadores, governadores das colônias, oficiais do exército, tornam-se cruéis exploradores. O africano aparece como vítima inocente, a quem se atribuem apenas atitudes passivas.

Um segundo passo em direção à descolonização da história do período colonial se dá paralelamente à voga de movimentos nacionalistas pela independência. Eis que os africanos desempenham um papel na história: é necessário trazê-lo à luz do dia. Os especialistas em ciência política que escreveram no período dos movimentos de independência derrubaram as barreiras. Estes trabalhos constituem uma importante contribuição para corrigir os desvios da história colonial.

No último estágio, a descolonização da história africana da época colonial deverá derivar de uma fusão da revolta contra o eurocentrismo e do movimento antielitista. Certos historiadores começaram a buscar um método comum interdisciplinar que lhes permita iniciar o estudo da história da agricultura ou da urbanização a fim de se utilizarem das outras ciências sociais. Outros começam a se interessar por pequenas áreas isoladas, na esperança de que tais estudos de microcosmos revelem a trama da evolução de estruturas econômicas e sociais mais importantes e mais complexas.

Os progressos da história analítica – que é também “a história de campo” baseada em investigações e questões colocadas nos próprios locais de pesquisa, e não somente a consulta aos arquivos – constituem um importante passo nessa direção. A independência em relação aos arquivos se mostra tão essencial para o período colonial quanto para o período pré-colonial, cuja documentação é relativamente rara. O problema da “história colonial” sempre foi que, ao contrário do que se passou e se passa na Europa ou nos Estados Unidos, os arquivos foram criados e alimentados por estrangeiros. Os escritos incorporam necessariamente os preconceitos de seus autores, seus sentimentos sobre eles mesmos, sobre aqueles a quem governavam e sobre seus respectivos papéis. No mundo colonial, o historiador corre o risco de chegar a resultados desastrosos, se negligenciar a possibilidade de levar em conta outro ponto de vista, que ele pode obter através de testemunhos orais de pessoas que viveram sob o domínio colonial.

A história africana caminhou a largos passos, especialmente nós últimos anos, para lançar métodos novos e cobrir zonas não suficientemente exploradas.

No curso das explorações sobre o passado da África, a irradiação da nova história africana foi obra de um grupo de historiadores profissionais que fizeram dessa história o objeto principal de seu ensino e de seus escritos.

Na África, a partir do fim dos anos 40, a necessidade era maior à medida que se podia prever um movimento cada vez mais acelerado em direção à independência, ao menos para a maior parte da África do norte e do oeste. Depois de 1950, a fundação de novas universidades criava a necessidade de uma história renovada da África, considerada de um ponto de vista africano – em princípio ao nível da universidade e, passando pelos estabelecimentos de formação pedagógica, atingindo a escola em geral.

Neste reencontro da história da África com a história do mundo, o momento capital é aquele em que progride nos outros continentes o estudo da história africana. Em 1950, Roland Oliver começou a ensinar história africana na escola de estudos orientais e africanos da Universidade de Londres. Na União Soviética, D. A. Olderogge e seus colegas do Instituto Etnográfico de Leningrado inauguravam um programa sistemático de pesquisas que culminou, algum tempo depois, com a publicação de toda a documentação conhecida sobre a África subsaariana do século XI em diante. Durante esse mesmo decênio, foi criada na Sorbonne a primeira cadeira de História Africana.

A África tropical foi o primeiro centro de estudo da história da África no continente africano e lá se realizaram os progressos mais notáveis na primeira década após a Independência. A história africana já fazia parte do programa de ensino das universidades dessa região, mas tratava-se agora de encontrar um equilíbrio apropriado entre a história local, regional, africana e mundial. Foi na África de língua inglesa que ocorreram as maiores mudanças: o ensino da história da Grã-Bretanha e de seu império cedeu lugar a outras regiões. O impacto da história africana proporcionou assim uma reorientação geral, no sentido de uma concepção do mundo e de seu passado, verdadeiramente afrocêntrica – sem se interessar exclusivamente pela África e pelos africanos, como a velha tradição europeia se interessava apenas pelos europeus, mas no quadro de uma Weltanschauung da qual a África, e não a Europa, constitui o ponto de partida.

Em consequência disso, a tendência ao etnocentrismo em história foi mais seriamente abalada na América do Norte do que em outros lugares. Numerosos departamentos de história de universidades norte-americanas começaram a passar da antiga divisão entre história americana e europeia a uma divisão da história em três ramificações, sendo que a terceira – a do Terceiro Mundo – se tornava igual às duas outras.

Essa evolução ainda não está terminada, mas ela marca uma etapa no caminho que assegurará à história africana seu pleno impacto sobre a história em geral. A longo prazo, o êxito dependerá dos esforços conjuntos de especialistas africanos ao escreverem a história de suas próprias sociedades, dos de historiadores não africanos que interpretam a história africana para outras sociedades e de uma ampliação das ciências sociais internacionais até o ponto em que os especialistas em outras disciplinas sejam obrigados a levar em consideração os dados africanos antes de arriscarem qualquer generalização sobre a vida das sociedades humanas.

Leia a íntegra do texto aqui.

Bibliografia:

CURTIN, Philip D. Tendências Recentes das Pesquisas Históricas Africanas e Contribuição à História em Geral. In: História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África. 2.ed – Brasília: UNESCO, 2010.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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