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História Geral da África, I: História e Linguística; Teoria Relativa às “Raças” e História da África

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Resumo de História Geral da África – História e Linguística. Aqui estão as duas partes do capítulo 10 do livro organizado pela UNESCO. Boa leitura!

Ciências linguísticas e história

Todas as ciências que têm por objeto a língua e o pensamento podem contribuir para a pesquisa histórica.

Assim, é comum dizer que o estudo do parentesco das línguas situa-se no ponto de encontro entre a linguística e a história, mais do que na análise da evolução do material fornecido pelos textos escritos ou orais e pelos vocábulos de um idioma. Mas os dois tipos de pesquisa se referem a fatos de língua ou pensamento e, portanto, de história.

Os Bakongo de civilização bantu, os Ibo de Benin ou os Susu de cultura sudanesa deixaram poucos textos (ou mesmo nenhum) que correspondem às normas de uma ciência histórica moderna. Em contrapartida, produziram, como fonte de informação, uma abundante literatura oral com gêneros distintos de modo relativamente nítido e obras que hoje seríamos tentados a classificar como contos, novelas, narrativas, crônicas de epopeias históricas, lendas, mitos, obras filosóficas ou cosmogônicas, reflexões técnicas, religiosas ou sagradas. Nelas se mesclam o verdadeiramente vivido e a ficção, o evento que pode ser datado e o mito puramente imaginário.

A reconstrução da história dos Bakongo, dos Ibo ou dos Susu passa pela análise crítica dessas literaturas e tradições orais. Também não pode negligenciar a análise dos seus discursos, técnicas e conhecimentos, a decifração das linguagens, dos conceitos e do vocabulário que tais grupos utilizaram e que continuam a revelar a história de cada um deles.

Ciência classificatória e a história dos povos africanos

Classificar as línguas já é revelar o parentesco e a história dos povos que as falam.

Uma classificação rigorosa das línguas africanas requer procedimentos que demonstrem que as formas, o vocabulário e as estruturas linguísticas propostas como elementos de comparação fazem parte do patrimônio original das línguas comparadas. A semelhança não deve ser, portanto, resultado de empréstimos ou de contatos antigos ou recentes. Com o tempo, as formas originalmente comuns a mais de uma língua podem ter sofrido transformações de ordem fonética, morfológica ou estrutural. Essa evolução é um fenômeno conhecido e analisável.

Insuficiência dos trabalhos

Até mesmo a simples enumeração das línguas africanas encontra obstáculos, já que o levantamento desses idiomas ainda não atingiu resultados muito precisos. Estima-se que existam no continente de 1300 a 1500 idiomas classificados como línguas. A ausência de uma análise profunda da estrutura, do léxico e da possível intercompreensão é um fato corrente no estudo da maioria dos falares africanos. Assim, as classificações propostas periodicamente tornam-se caducas muito depressa.

A ideologia deformante

Os primeiros trabalhos sobre as línguas e o passado da África coincidiram com a expansão colonial europeia. Assim, foram fortemente marcados pelas visões hegemonistas da época. Além disso, a migração dos povos africanos no sentido leste-oeste e norte-sul tornou confuso o quadro étnico, racial e linguístico do continente.

Todas essas observações nos mostram até que ponto está generalizada a confusão entre categorias tão diferentes como a língua, o modo de vida e a “raça”, sem contar o conceito de etnia, que é utilizado, conforme o caso, com referência a uma ou várias dessas categorias.

Conclusão

A linguística é indispensável à elaboração de uma ciência histórica africana. Contudo, só chegará a desempenhar tal papel se for empreendido um grande esforço em sua área de pesquisa. Até agora, sua contribuição foi pequena. Pesquisas ainda estão em andamento e os métodos ganharam maior precisão. Nesse contexto, podemos esperar que a análise das línguas africanas contribua, num futuro próximo, para elucidar aspectos importantes da história do continente.

PARTE II Teorias relativas às “raças” e história da África

O conceito de raça é um dos mais difíceis de definir cientificamente.

Como era de esperar, a identificação das “raças” se fez em primeiro lugar a partir de critérios aparentes, para em seguida ir considerando, pouco a pouco, realidades mais profundas. Aliás, as características exteriores e os fenômenos internos não estão absolutamente separados. Se certos genes comandam os mecanismos hereditários que determinam cor da pele, por exemplo, esta também está ligada ao meio ambiente. Observou-se uma correlação positiva entre estatura e temperatura mais elevada do mês mais quente e uma correlação negativa entre estatura e umidade. Da mesma forma, um nariz fino aquece melhor o ar num clima mais frio e umidifica o ar seco inspirado. É assim que o índice nasal aumenta consideravelmente nas populações subsaarianas, do deserto para a floresta, passando pela savana. Embora possuindo o mesmo número de glândulas sudoríparas que os brancos os negros transpiram mais, o que mantém seu corpo e sua pele numa temperatura menos elevada.

A abordagem morfológica

Desde a cor da pele e a forma dos cabelos ou do sistema piloso até os caracteres métricos e não métricos foi construído um verdadeiro arsenal de observações e mensurações. No entanto, as características morfológicas são apenas um reflexo mais ou menos deformado do estoque gênico; sua conjugação num protótipo ideal raramente se realiza com perfeição. De fato, trata-se de detalhes evidentes situados na fronteira homem/meio ambiente, mas que, justamente por isso, são muito menos inatos que adquiridos.

A abordagem demográfica ou populacional

Este método vai insistir, de imediato, sobre fatos grupais (reservatório gênico ou genoma), mais estáveis que a estrutura genética conjuntural dos indivíduos. De fato, na identificação de uma raça, é mais importante a frequência das características que ela apresenta do que as próprias características.

O hemotipologista também leva em conta a anatomia, mas no nível da molécula. Os marcadores sanguíneos obedecem à lei do tudo ou nada. Uma pessoa é ou não do grupo A, tem fator Rh+ ou Rh – e assim por diante. Além disso, os fatores sanguíneos independem da pressão do meio. Aqui, o indivíduo é identificado por um conjunto de fatores gênicos, e a população por uma série de frequências gênicas.

O estudo dos hemótipos em grandes áreas mostra a distribuição geográfica dos fatores sanguíneos por todo o mundo. Associado ao cálculo das distâncias genéticas, ele dá uma ideia de como as populações se situam umas em relação às outras, enquanto o sentido dos fluxos gênicos permite reconstituir o processo prévio de sua evolução.

Os trabalhos de R. C. Lewontin, com base nas pesquisas dos hemotipologistas, mostram que, no mundo inteiro, somente 7% da variabilidade separam as raças tradicionais. Em resumo, os indivíduos do mesmo grupo “racial” diferem mais uns dos outros que as “raças”…

É por isso que cada vez mais especialistas negam a existência de qualquer raça. Biologicamente, a cor da pele é um elemento negligenciável em relação ao conjunto do genoma. É por isso que a UNESCO, depois de ter organizado uma conferência de especialistas internacionais, declarou: “A raça é menos um fenômeno biológico do que um mito social”.

Com certeza, a história da África não é uma história de “raças”. Contudo, para justificar uma certa história, abusou-se demais do mito pseudocientífico da superioridade de algumas “raças”. Ainda hoje, o mestiço é considerado branco no Brasil e preto nos Estados Unidos da América.

A preeminência histórica da cultura sobre a biologia é evidente desde a aparição do Homo no planeta. Quando irá tal evidência impor-se aos espíritos?

Leia a íntegra do texto aqui.

Bibliografia:

DIAGNE, P. História e Línguística; Teoria Relativa às “Raças” e História da África. In: História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África. 2.ed – Brasília: UNESCO, 2010.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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