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História Geral da África, I: A Tradição Oral e sua Metodologia

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As civilizações africanas, no Saara e ao sul do deserto, eram em grande parte civilizações da palavra falada, mesmo onde existia a escrita. Seria um erro reduzir a civilização da palavra falada simplesmente à “ausência do escrever”. Isso demonstraria uma total ignorância da natureza dessas civilizações orais.

A civilização oral

Uma sociedade oral reconhece a fala não apenas como um meio de comunicação diária, mas também como um meio de preservação da sabedoria dos ancestrais. A tradição pode ser definida como um testemunho transmitido verbalmente de uma geração para outra. A oralidade é uma atitude diante da realidade e não a ausência de uma habilidade.

A natureza da tradição oral

Uma definição um pouco arbitrária de um testemunho poderia ser: todas as declarações feitas por uma pessoa sobre uma mesma sequência de acontecimentos passados.

As tradições são também obras literárias e deveriam ser estudadas como tal, assim como é necessário estudar o meio social que as cria e transmite e a visão de mundo que sustenta o conteúdo de qualquer expressão de uma determinada cultura.

A tradição como obra literária

Numa sociedade oral, a maioria das obras literárias são tradições, e todas as tradições conscientes são elocuções orais. Como em todas elocuções, a forma e os critérios literários influenciam o conteúdo da mensagem. Essa é a principal razão das tradições serem colocadas no quadro geral de um estudo de estruturas literárias e serem avaliadas criticamente como tal.

Toda literatura oral tem sua própria divisão em gêneros literários. O historiador não só tentará apreender o significado desses gêneros para a cultura que está estudando, mas também colherá ao menos uma amostra representativa de cada um, pois em todos eles pode-se esperar encontrar informações históricas.

Contexto social da tradição

Tudo que uma sociedade considera importante para o perfeito funcionamento de suas instituições, para uma correta compreensão dos vários status sociais e seus respectivos papéis, para os direitos e obrigações de cada um, tudo é cuidadosamente transmitido. Numa sociedade oral isso é feito pela tradição, enquanto numa sociedade que adota a escrita, somente as memórias menos importantes são deixadas à tradição. É esse fato que levou durante muito tempo os historiadores a acreditar erroneamente que as tradições eram um tipo de conto de fadas ou brincadeira de criança.

Estrutura mental da tradição

Por estrutura mental entendemos as representações coletivas inconscientes de uma civilização, que influenciam todas as suas formas de expressão e ao mesmo tempo constituem sua concepção do mundo. Essa estrutura mental varia de uma sociedade para outra. A nível superficial, é relativamente fácil descobrir parte dessa estrutura, através da aplicação de técnicas clássicas da crítica literária ao conteúdo de todo o corpus de tradições e da comparação desse corpus com outras manifestações, sobretudo as simbólicas, da civilização. A tradição cria estereótipos populares. Assim, encontramos modelos de comportamentos ideais e de valores. Nas tradições de reis, um é o “mágico”, um outro governante é o “justo”, outra pessoa é o “guerreiro”. Mas isso distorce a informação; algumas guerras, por exemplo, são atribuídas ao rei guerreiro, quando as campanhas foram de fato conduzidas por outrem. Os valores são descobertos um por um e não como sistema coerente que compreende todas as representações coletivas. Teoricamente, portanto, é preciso “desmontar” uma sociedade para encontrar seus modelos de ação, seus ideais e valores.

A cronologia

A tradição oral sempre apresenta uma cronologia relativa, expressa em listas ou em gerações. Em geral, essa cronologia permite situar todo o conjunto de tradições da região em estudo no quadro da genealogia ou da lista de reis ou de grupos de idade que abrange a mais ampla área geográfica, mas não permite estabelecer a sequência relativa aos acontecimentos exteriores àquela região particular. As cronologias relativas devem, portanto, ser associadas e, se possível, convertidas em cronologias absolutas. Mas antes há um outro problema a ser resolvido: o de se assegurar que as informações utilizadas correspondem a uma realidade não distorcida pelo tempo.

Torna-se cada vez mais claro que a cronologia oral está sujeita a processos de distorção. Há também uma tendência a regularizar as genealogias, as sucessões e a sequência de grupos de idade, para conformá-las às normas ideais da sociedade no momento. Etnólogos mostraram ainda que as sociedades chamadas segmentárias tendem a eliminar ancestrais “inúteis”, isto é, os que não deixaram descendentes que ainda vivam e constituam um grupo separado. Isso explica por que a profundidade genealógica de cada grupo numa determinada sociedade tende a permanecer constante. Desse modo, a lacuna entre a origem e a história consciente fica escamoteada.

Avaliação das tradições orais

Uma vez submetidas a minuciosa crítica, literária e sociológica, podemos atribuir às fontes um grau de probabilidade. Acontece frequentemente de o historiador não se sentir satisfeito com as informações orais de que dispõe. Pode registrar o seu descrédito em relação à validade das informações, mas, na falta de algo melhor, é obrigado a utilizá-las, enquanto outras fontes não forem descobertas.

Coletânea e publicação

Conclui-se de tudo que foi dito acima que todos os elementos que permitam aplicar a crítica histórica às tradições devem ser reunidos em campo. Isso implica num bom conhecimento da cultura, sociedade e língua ou línguas envolvidas. Por último, é preciso adotar uma atitude sistemática diante das fontes, das quais devem ser recolhidas todas as variantes.

É preciso estruturar a pesquisa de acordo com uma nítida tomada de consciência histórica. Ao eleger um objeto de estudo, o pesquisador deve, evidentemente, ter interiorizado a cultura em questão. A maior deficiência das pesquisas que se fazem atualmente é a falta de consciência histórica. Há uma forte tendência em se deixar guiar pelo que se encontra.

Falta de paciência é outro perigo. Uma consequência particularmente nefasta é a impressão criada entre outros pesquisadores de que essa “área” já foi estudada, o que diminui a probabilidade de se fazer uma pesquisa melhor no futuro. Não se deve esquecer que as tradições orais desaparecem.

A menos que seja publicado, o trabalho não estará completo, por não se encontrar disponível para a comunidade dos estudiosos. Deve-se ter em vista pelo menos uma classificação das fontes investigadas, com introdução, notas e índice, que constitua um arquivo aberto a todos. Cada fonte oral deve ser citada separadamente no trabalho. O trabalho que diz “A tradição conta que…” faz uma generalização perigosa.

Conclusão

Atualmente a coleta de tradições orais está se processando em todos os países africanos. A experiência prática provou que o valor maior das tradições reside em sua explicação das mudanças históricas no interior de uma civilização. Mas constatamos também que as tradições são geralmente enganadoras no que diz respeito à cronologia, e aos dados quantitativos. Isso mostra que a tradição oral não é uma panaceia para todos os males.

Não é mais necessário convencer os estudiosos de que as tradições podem ser fontes úteis de informação. Todo historiador está ciente disso. O que devemos fazer agora é melhorar nossas técnicas de modo a extrair das fontes toda a sua riqueza potencial. Essa é a tarefa que nos espera.

Leia a íntegra do texto aqui.

Bibliografia:

VANSINA, J. A tradição oral e sua metodologia. In: História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África. 2.ed – Brasília: UNESCO, 2010.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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