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História Geral da África, I: Os Métodos Interdisciplinares Utilizados Nesta Obra

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Este é o resumo de Os Métodos Interdisciplinares Utilizados Nesta Obra, capítulo 15 de História Geral da África.

A interdisciplinaridade

A interdisciplinaridade na pesquisa histórica é um tema em voga. Mas sua aplicação torna-se difícil, quer pela disparidade das metodologias próprias de cada disciplina, quer pela influência dos hábitos particularistas em que se acham enquistados os próprios pesquisadores, zelosos de manter uma espécie de soberania territorial epistemológica. Essa tendência à especialização já se faz sentir na própria apresentação dos resultados da pesquisa, que continua a distinguir na vida de um povo, em capítulos bem isolados, a vida econômica, a sociedade, a cultura, etc. Quando, porventura, se tenta uma abordagem interdisciplinar, frequentemente ela se faz em termos de fagocitose.

Disciplina-orquestra, a história dispunha, tradicionalmente, de um maestro – o documento escrito. Mas a história da África, ao sul do Saara principalmente, caracteriza-se pela relativa pobreza de fontes escritas, sobretudo antes do século XVI e, mais ainda, antes do século VII da Era Cristã. Ora, “quem não tem mãe mama na avó”, diz um provérbio africano. Na ausência de fontes escritas, a história da África deve coligar todas as fontes disponíveis para reconstituir o passado. E a carência pode, afinal, transformar-se quase num fator positivo, na medida em que permite fugir ao peso esmagador da escrita, que por vezes acarreta uma depreciação implícita das outras fontes.

O que está claro é que nenhuma disciplina se beneficia com uma abordagem individual da realidade densa e emaranhada do mundo africano. É o caso dos pesquisadores que pensam encontrar o princípio de explicação fundamental de uma determinada sociedade africana num único elemento: por exemplo, na análise estrutural do parentesco ou no sistema de representações, crenças, mitos e símbolos considerados como que dotados de uma autonomia e de uma lógica própria, independente, por exemplo, das relações de produção.

A história africana não pode acomodar-se ao gueto. Nem mesmo para estabelecer a cronologia. Com frequência, a solução de um problema de cronologia só pode ser corretamente alcançada com a ajuda combinada de quatro fontes distintas de informações: os documentos escritos, a arqueologia, a linguística e a tradição oral. O valor de uma fonte não é uma realidade em si; varia de acordo com o objeto específico da pesquisa empreendida. Dependendo do tema, a fonte-mestra não será a mesma. Em se tratando da história da África, a interdisciplinaridade é um dos dados fundamentais do método. De fato, não existe outra alternativa.

A complementaridade das fontes

As fontes da história da África são nitidamente complementares.

Isolada, a arqueologia corre o risco de tornar-se uma descrição árida; a explicação de seus achados encontra -se frequentemente fora dela mesma. O mesmo se dá com relação à arte africana, que, para iluminar a história, deve ser por ela iluminada. Com efeito, a arte, sobretudo a arte pré-histórica, é condicionada por uma multiplicidade de fatores, desde a geologia até as religiões, mitos, cosmogonias, passando pelas estruturas sociopolíticas e a sede de poder dos reis. Por outro lado, a arte muitas vezes apresenta-se como um conservatório, um museu de antropologia cultural e mesmo física devido aos ritos, escarificações, penteados, costumes e cenários que reproduz.

O mesmo ocorre com a tradição oral. A tradição oral é a história vivida, transportada pela memória coletiva com todas as suas contingências e singeleza mas também com toda a sua força e vigor. A tradição oral ajuda a corrigir os erros de interpretação oriundos de um enfoque puramente externo. Porém, caso existam versões múltiplas de uma mesma tradição, será a consulta a uma outra fonte – por exemplo, o mapa das zonas afetadas por determinado eclipse – que permitirá decidir por uma delas.

A linguística, por seu turno, é cada vez mais uma companheira da história, pois as línguas são um museu vivo em que se preserva a tradição, e, para extrair-lhes a “essência real”, é necessário possuir a ciência da linguagem. Toda língua é não só uma criação mental como também um fenômeno social. Seu vocabulário, por exemplo, é o reflexo das realidades forjadas pela história de cada povo. Certos conceitos de uma língua são difíceis de expressar de forma idêntica em outra, relacionada a um contexto global diferente. É o caso do conceito de dyatigui (em mande), que está longe de coincidir com a simples noção de “hospedeiro”.

Recorrer-se-á também às ciências naturais ou exatas para apreender ou afinar a imagem do passado da África, a começar pelo computador para o tratamento de certos dados numéricos; os processos técnicos, físicos, químicos e bioquímicos de datação, de análise dos metais, das plantas e dos gêneros alimentícios, do gado e de seu pedigree; a epidemiologia e o estudo das catástrofes naturais, vinculado à climatologia. Não é gratuitamente que, nas tradições africanas, atribui -se tanta importância aos períodos de grandes fomes, que, assim como as guerras, são usadas como referências cronológicas. O papel da violência na evolução da África foi, sem dúvida, comparável ao que se verificou na história de outros continentes. A estatística também deverá contribuir de modo substancial, dando uma consistência quantificada a realidades que, sem isso, seriam deformadas, mesmo qualitativamente, já que, a partir de um certo estágio, pode -se falar de um “salto” qualitativo na natureza dos fenômenos. As estruturas de dois povos, um com dez mil e outro com dez milhões de pessoas, não podem ser da mesma natureza.

A natureza africana teve grande influência na história. É por isso que, sem cair num determinismo mecânico qualquer, jamais se devem perder de vista as condições geográficas.

Como?

Como vimos, são múltiplas as associações e conjugações de disciplinas que se impõem ao historiador da África. Mas como organizar essa frente unida de disciplinas tão heterogêneas na luta pela conquista da antiga face da África?

A uma interdisciplinaridade por justaposição, deve-se preferir uma interdisciplinaridade por enxerto de abordagens e disciplinas. A estratégia geral da pesquisa, bem como as etapas táticas, devem ser estabelecidas em conjunto. Em prazos determinados ou a pedido de uma das instâncias envolvidas na pesquisa, devem-se fazer ajustes ou combinações que recolocarão os problemas em termos diferentes, renovados com a progressão das diligências comuns.

Essa associação permanente, essa pesquisa coletiva, deverá promover o enriquecimento mútuo do enfoque de cada disciplina e apurar sua apreensão do tema comum da pesquisa. Ela permite frear rapidamente a progressão às cegas em situações de impasse e abrir o maior número possível de caminhos fecundos e atalhos. Esse tipo de pesquisa colegial, que levaria historiadores, antropólogos culturais, especialistas da arte, botânicos, a visitarem os sítios junto com os arqueólogos, revela-se como uma rede gigante, capaz de recolher tanto em extensão quanto em profundidade a substância da realidade histórica global. Isso pressupõe sobretudo, a instauração de uma nova mentalidade entre os próprios pesquisadores.

Na verdade, o objetivo desse exercício é restituir aos africanos uma visão e uma consciência de seu passado, que deve reproduzir cenas que outrora foram reais. A vida individual ou coletiva não é unilinear nem unidimensional; é um tecido denso e compacto.

Além disso, o método global irá requerer uma abordagem que considere todos os fatores externos, assim como os elementos domésticos. Exige que se transcendam as fronteiras da África de modo a integrar as contribuições asiáticas, europeias, indonésias e americanas à personalidade histórica africana. O arroz asiático foi cultivado onde já existia o oryza aborígene africano, e a mandioca, onde existia o inhame. A cultura africana é um sofisticado complexo de fatores. Não poderia reduzir -se à soma numérica desses fatores, pois eles não são meros produtos de mercearia que se alinha e se conta. O ideal da história da África é apoiar -se em todos esses elementos para retratar a própria cultura no seu desenvolvimento dinâmico. Em outras palavras, o método interdisciplinar deveria finalmente conduzir a um projeto transdisciplinar.

Leia a íntegra do texto aqui.

Bibliografia:

Ki-Zerbo, Jospeh. Os métodos interdisciplinares utilizados nesta obra J. Ki‑Zerbo. In: História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África. 2.ed – Brasília: UNESCO, 2010.

Rolf Amaro

Nascido em 83, formado em Ciências Sociais, músico, sempre ando com um livro na mão. E a Ana,minha senhora, na outra.

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